sábado, 15 de fevereiro de 2025

SURPRESAS PROMISSORAS

No dia 16 de janeiro, tive uma grata surpresa ao assistir no teu corpo verso ser da Companhia Curvas em Dança na Sala Álvaro Moreira. A primeira surpresa foi encontrar tudo pronto para o espetáculo depois de um temporal de verão que deixou o saguão do Centro Municipal de Cultura cheio de poças d'água devido às goteiras e avarias no telhado do local. A situação não é novidade, mas parece que a Prefeitura não tem feito empenho suficiente para garantir a manutenção adequada do local. Por sorte, estava tudo seco na Álvaro.

no teu corpo verso ser mescla texto, dança e música. Aliás, o fato de ver um espetáculo com a trilha sonora sendo executada ao vivo foi outra grata surpresa. No flamenco, estamos acostumados com esta possibilidade, mas não é comum ver outras linguagens utilizando este recurso. Uma cantora e um guitarrista formam a banda do espetáculo nesta apresentação na programação do Festival Porto Verão Alegre. A interação entre eles e os bailarinos é pequena. Excetuando-se a primeira cena, em que Camila Balbueno, artista dotada de uma voz com belo timbre e técnica vocal excelente, canta rodeada pelos intérpretes (que fazem coro em alguns breves momentos), os músicos ficam sentados em duas cadeiras ao fundo do palco. Me pergunto o quanto disso é escolha estética e o quanto é necessidade técnica, pois, citando novamente a experiência com flamenco, sabemos como pode ser complicado mover músicos pelo espaço. Na grande maioria das vezes, não há microfones, caixas de retorno, canais na mesa, cabos, sistemas sem fio e outras aparelhagens sonoras que possibilitem uma boa execução da musica juntamente com o movimento. Neste caso, as impossibilidades técnicas acabam se impondo aos  desejos estéticos e de criação cênica.

Outro elemento que participa em apenas um momento do espetáculo são os quatro manequins posicionados no fundo da cena ao lado dos dois músicos. Será que aqueles dorsos pintados e grafitados com tintas coloridas não poderiam também participar do movimento da cena, ao invés de ficarem imóveis para serem manipulados em apenas um momento? Agora é a experiência com a dança teatro (ou outro nome que prefiram) que me faz imaginar quais outras possibilidades aqueles interessantes elementos cênicos teriam na construção das coreografias e cenas. Como no teu corpo verso ser parece estar em processo, algo comum em espetáculos recentes e das linguagens contemporâneas, estes manequins poderiam ajudar a compor uma cena final, que acho que ainda precisa ser encontrada. Eles também poderiam ser utilizados para quebrar um pouco o ritmo do espetáculo, que intercala cenas faladas com dançadas, quase sempre sendo uma coreografia, um texto dito por algum dos intérpretes, outra coreografia, outro texto e assim sucessivamente. De toda forma, o espetáculo consegue manter uma boa dinâmica musical e nas coreografias, ao misturar de forma inteligente, solos, duos e momentos em grupo.

A Curvas em Dança é um companhia que reúne um elenco heterogêneo e harmônico ao mesmo tempo. Corpos magros, gordos, altos, baixos, com muita ou pouca experiência em dança, se reúnem para colocar em cena coreografias bem elaboradas que demonstram um consistente trabalho de pesquisa e de exploração das possibilidades do espaço e de cada corpo em cena. O grupo é jovem e parece ter boas bases de conhecimento sobre os recursos coreográficos disponíveis. no teu corpo verso ser é uma proposta ousada, por misturar música, texto e dança, e ao mesmo tempo simples e bem realizada por toda a equipe, seja técnica ou artística, nela envolvida.


Ficha técnica no teu corpo verso ser:

Elenco: Giovana Rigo, Gianna Soccol, Karla Santos, Luan Hoffman, Paula Quirino, Rafaela Machado e Teti Ametista
Direção geral: Rafaela Machado
Direção cênica: Luan Hoffman
Textos: Júlia Córdova
Música ao vivo: Camila Balbueno e Ramon Gomes
Técnico de luz: Carlos Azevedo
Técnico de som: Manu Goulart
Cenografia: Alex Zardin
Filmagem e edição: Main Quest
Produção: Seis por Oito
Realização: Companhia Curvas em Dança

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

ENQUANTO DANÇAMOS EM PORTO ALEGRE

Este é o primeiro texto de uma série destinada aos espetáculos assistidos no Festival Porto Verão Alegre em janeiro de 2025 em Porto Alegre: Enquanto Esperamos, da Cia H Dança; no teu corpo verso ser, da Curvas em Dança; Muita Água, de Cibele Sastre, Fabiano Nunes e Juliana Vicari e Engrenagem, da Cia de Dança Karin Ruschel. Farei um texto sobre cada um, mas talvez aconteçam comparações ou relações entre eles pela proximidade em que os assisti, num intervalo de duas semanas.

A primeira destas relações é sobre o público presente nas propostas coreográficas, em grande parte formado por amigos e familiares dos artistas em cena e pela classe artística. O assim chamado "público em geral", formado por pessoas que não tem relação direta com a dança e outras artes ou com os artistas e técnicos envolvidos nos espetáculos, é muito pequeno, em algumas propostas inexistente. Mesmo que a dança seja uma das atividades artísticas mais praticadas no país, ela segue tendo pouco público e a formação de plateia parece continuar necessária. As escolas conseguem levar público para seus próprios espetáculos, mas como fazer com que as pessoas se interessem pelos trabalhos das companhias independentes, artistas individuais e outros não vinculados a espaços de formação?

Tendo em vista este entre muitos outros desafios presentes no cenário da dança em Porto Alegre, a Cia H não só apresentou Enquanto Esperamos neste PVA, mas também outros dois espetáculos. O programa da companhia dirigida por Ivan Motta era composto por EXTimidades, realizado no dia 14 de janeiro; e as estreias de Enquanto Esperamos, no dia 15, e Memórias Perdidas II, no dia 16. Todos foram apresentados no Teatro Bruno Kiefer, no 6 andar da Casa de Cultura Mario Quintana. Uma sequência de espetáculos que, além de revelar que a Cia H é uma das mais atuantes nas duas últimas décadas na capital gaúcha, mostra que as equipes técnicas e artísticas que compõem este núcleo criativo tem conseguido se empenhar em colocar suas propostas em cena. E isto não é tarefa fácil, já que os bailarinos e técnicos da companhia não trabalham sob regime de exclusividade, uma condição rara na Porto Alegre de 2025 (me pergunto se isso existe na cidade), mas também porque as companhias independentes ou aquelas que não são vinculadas a centros de formação em dança não costumam ter sedes próprias nem fontes fixas de financiamento que permitam a continuidade ideal dos trabalhos, o que acredito ser o caso da Cia H Dança. Esta realidade dificulta os trabalhos de aprimoramento técnico dos bailarinos, ensaios, manutenção de figurinos e cenários, entre outros desafios.

Outro fator digno de nota nestas linhas é que Ivan Motta faz parte do mesmo grupo de Carlota Albuquerque, como dito neste texto sobre o novo trabalho da Cia Municipal de Porto Alegre, ou seja, é um coreógrafo que imprime seu estilo às propostas que leva a cena. Coreografias tecnicamente difíceis e bem elaboradas, com bonitos duos; bailarinos com grande capacidade técnica e expressiva, flexíveis, fortes, ágeis, com musicalidade; figurinos que costumam dançar junto com os muitos movimentos das coreografias, feitos em camadas, com tecidos de diferentes caimentos e texturas; desenhos de luz que intensificam as movimentações cênicas; a manutenção de um núcleo técnico e artístico capaz de realizar as diferentes propostas; capacidade de ressaltar as potencialidades ou características mais desenvolvidas em cada bailarino; colagens de músicas diversas compondo a trilha. Tudo isso costuma estar presentes nas propostas de Ivan Motta e cria uma identidade estética reconhecível.

Enquanto Esperamos tem tudo isso e ainda a mescla de experiências, ao colocar em cena quatro bailarinos da nova geração da dança de Porto Alegre ao lado de Edison Garcia, um intérprete com longa carreira na cena gaúcha. Neste trabalho, Edison demonstra bom domínio de texto, ao apresentar os outros quatro personagens e fazer as transições entre as cenas que compõem o espetáculo. Apesar de Garcia ter realizado um bom trabalho técnico com o texto, suas interações mais comoventes foram aquelas em que ele, com movimentos e elementos cênicos transicionou as emoções de cada momento sem falar. Enquanto Esperamos trouxe pra cena angústia, mas não vi, compreendi ou percebi as relações com as enchentes ocorridas em 2024 no RS. Como eram dois casais de bailarinos, as cenas e coreografias por vezes pareciam trazer à luz ou versar sobre os relacionamentos daquelas pessoas e não sobre o caos climático e a espera por resgate como escrito na sinopse de Enquanto Esperamos. Por certo vivenciar um desastre ecológico de grandes proporções não impede que outras questões apareçam, como vimos nos numerosos e lamentáveis casos de abuso revelados nos abrigos para os desalojados pelas águas em Porto Alegre e outras cidades do estado, mas este não parecia ser o enfoque central da obra da Cia H.

Na verdade, saí do teatro pensando no que havia ficado em mim depois de assistir Enquanto Esperamos. Para além das belas coreografias perfeitamente executadas, mais uma vez, relembrando a experiência com a Cia Municipal, o trabalho trouxe mais reflexões sobre o fazer artístico e o cenário da dança em Porto Alegre do que sobre a proposta cênica apresentada. Pode ser que meu olhar esteja viciado por ser também uma artista da dança nesta cidade, que atua, produz, dá aulas, é PJ e PF ao mesmo tempo e todas essas coisas, mas e se não for esta a questão?


Ficha Técnica de Enquanto Esperamos:

Direção: Ivan Motta
Elenco: Edison Garcia, Caleo Alencar, Tami Melegari, Bruno Manganelli, Andressa Pereira
Produção: Luka Ibarra
Iluminação: Maurício Rosa
Sonorização: Andre Vinowsky

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

NAS ÁGUAS DA CIA MUNICIPAL

Ainda no exercício de voltar a escrever sobre dança, chegou a vez de colocar aqui minhas sensações depois de assistir Coração Encharcado e ainda assim... da Cia Municipal de Dança de Porto Alegre. A obra estreou no dia 25 de novembro de 2024 no estacionamento do Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues e fez parte da programação da 31 edição do Festival Internacional de Artes Cênicas Porto Alegre Em Cena.

Cheguei uns quinze minutos antes das 20h, horário marcado para a apresentação, achando que seria melhor chegar mais perto do horário de início pois, como a obra foi idealizada e apresentada no estacionamento do teatro, acreditei que o público ficaria em pé. Para minha surpresa, havia uma arquibancada formando a plateia que, no entanto, estava já lotada quando cheguei. Consegui sentar no cordão que separa o gramado do espaço geralmente ocupado pelos carros. O público foi-se espalhando pelo gramado e junto à grade que delimita o estacionamento e logo a produção começou a limitar o local onde as pessoas estariam, já que, embora Coração Encharcado aconteça num estacionamento, havia um espaço cênico pré-determinado, ou seja, haviam luzes montadas, objetos cênicos posicionados e marcas cênicas que precisavam ser respeitadas. Creio que, para uma melhor fruição da obra e afim de evitar atrasos, seria melhor para o público e para os artistas e técnicos, que a quantidade de assistentes fosse limitada. Uma entrega de senhas teria facilmente evitado alguns inconvenientes. Estou fazendo todo esse preâmbulo porque o local e como estamos acomodados ou não para assistir a algo acaba influenciando na forma como experienciamos as diferentes situações. Depois de uns 15min, a grama que roçava minha perna, a dor por sentar no chão duro e a falta de local para esticar as pernas já nublavam a minha experiência ali.

A palavra incômodo define grande parte da sensação que vivi naquela noite. Obviamente que ressalto a qualidade técnica dos bailarinos, da produção, da equipe técnica, a Cia Municipal tem bons profissionais atuando em todas as áreas necessárias para a realização de um espetáculo. É impossível negar que os bailarinos são técnica e expressivamente completos, que a iluminação intensificou e sublinhou intenções e momentos e que Carlota Albuquerque é uma das grandes coreógrafas contemporâneas de Porto Alegre. Aliás, uma das características de Coração Encharcado é que ele tem o "selo" Carlota Albuquerque, ou seja, quando a gente começa a assistir a obra, identificamos imagens, formas de composição, uso de elementos cênicos, estética dos figurinos e formas de pensar a cena próprios dessa profissional que, neste trabalho, atuou ao lado de Airton Tomazzoni. Ao ver este trabalho da Cia Municipal de Porto Alegre, lembrei de outros do Terpsi e do Canoas Coletivo de Dança também assinados pela diretora e coreógrafa. Quando falamos de profissionais que atuam há décadas num local e com diferentes grupos de pessoas, é interessante notar as características e escolhas artísticas que fazem aquele trabalho reconhecível como algo dirigido ou idealizado por esta determinada pessoa.

Voltando à cena do dia 25, meu incômodo, para além de estar mau acomodada, começou quando vi aquele monte de água potável sendo desperdiçada. Água derramada de sacos e tonéis, jogada de baldes do alto do telhado do Centro Municipal de Cultura, jorrando de um lava jato apontado para cima, enfim, ver toda aquela água escorrendo me impactou de maneira negativa. Claro que as imagens eram bonitas. Também não acho que seja viável falar sobre enchentes, chuvas e inundações, sem trazer a água pra cena, mas como uma pessoa que ficou muitos dias sem água nas torneiras, que teve que quase disputar garrafas de água mineral nos supermercados, que teve esse recurso racionado por praticamente 30 dias, fiquei incomodada em ver toda aquela água escorrendo pelo concreto do estacionamento. Nem eu conhecia esse trauma instalado em mim. E é essa exatamente uma das razões de existência das artes, não? Nos trazer questionamentos e percepções sobre nós, sobre os outros, sobre um determinado tema ou sentimento. 

Embora eu tenha refletido sobre a água e o espetáculo tivesse cenas impactantes e poéticas, como o solo da bailarina com as fotografias nos cabelos e quando barquinhos coloridos de papel navegam num curso de água, respectivamente, a sensação geral que tive com Coração Encharcado e ainda assim foi de deja vu. Era um espetáculo com os sempre bem preparados bailarinos da Cia Municipal e dirigido pela estética da Carlota Albuquerque. A falta de acomodação do público, obviamente subestimado pela organização do evento e toda aquela água não me deixaram ter uma percepção mais objetiva da obra. Fui tomada pela dor no quadril, pelas memórias do racionamento e das perdas que tivemos para as águas, pelos pensamentos de quem também cria para espaços fora de teatros e fica questionando o quanto conseguimos controlar ou não todas as variáveis do momento e o quanto precisaríamos deixar espaço para a improvisação e adaptação quando não estamos numa caixa cênica. Coração encharcado  ocorre num estacionamento, mas a obra delimitou um espaço para acontecer, criou-se um "palco italiano", uma vista frontal, apesar dos momentos em que uma bailarina apareceu no telhado ou um carro surgiu buzinando na entrada do estacionamento trazendo o famoso Jacaré do Menino Deus, quase um popstar da enchente em Porto Alegre.

Enfim, vi e ouvi muita gente que sentiu diferente ao assistir esse trabalho da Cia Municipal de Porto Alegre. Pessoas que ficaram impactadas, emocionadas, mas eu de fato não consegui estabelecer uma conexão desse tipo com a obra. Fiquei pensando sobre muitas outras coisas que acredito não serem as propostas artísticas dos criadores deste trabalho. Espero rever Coração Encharcado e ainda assim... em outras condições para estabelecer outras conexões com a obra.


Ficha técnica de Coração encharcado e ainda assim...:

Direção: Airton Tomazzoni e Carlota Albuquerque
Assistência de direção: Neca Machado
Intérpretes/criadores: Andressa Pereira, Caleo Alencar, Driko Oliveira, Iago Poerch, Isadora Franco, Leonardo Maia, Leonardo Silva, Marina Sachet, Paola Baldissera, Paula Finn, Pedro Coelho
Cenografia: Rodrigo Shalako
Trilha sonora: Driko Oliveira
Figurinos: Gustavo Dienstmann
Iluminação: Guto Greca
Fotos: Tom Peres
Produção: Carol Martins, Carla Souza e Ilza do Canto

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

TENTATIVA DE RETOMAR A ESCRITA

Depois de um período onde a falta de tempo imperou por aqui, estou novamente tentando escrever alguma coisa sobre algo. Escrevi mentalmente umas três ou quatro crônicas durante este tempo em que estive ausente, mas o ritmo acelerado dos dias nos quais vivemos me impediu de colocar elas neste espaço que creio já ser ultrapassado. Apesar disso, retomo a escrita motivada por uma oficina de crítica de dança expandida para a qual me inscrevi. Estou, portanto, juntando a vontade um tanto reprimida com a necessidade de escrever sobre experiências vivenciadas.

No dia 24 de novembro de 2024, assisti ao espetáculo, ou melhor, palestra dançada, Gordança, uma pesquisa e espetáculo da bailarina Renata Teixeira na Zona Cultural em Porto Alegre. O local onde o espetáculo ocorreu contribui bastante para a boa experiência, já que, no início da cena, Renata chega pela plateia, como pesquisadora, perguntando aos presentes se estavam ali mais pela palestra ou pela dança. Afirmo que o local ajuda, pois a Zona Cultural proporciona espaço cênico, mas também um bar, sendo possível comer e beber mesmo nas cadeiras destinadas ao público, o que torna a "espera" por este momento da pesquisa mais informal e agradável. 

Minha intenção aqui não é descrever o que ocorreu naquele domingo na Zona Cultural, mas salientar aspectos que considerei importantes. O fato de chamar o que assistimos em Gordança de "palestra dançada" é muito interessante, pois estas palavras descrevem exatamente o que ocorre na cena. Neste sentido, gostaria que os gestos que a intérprete faz enquanto fala fossem mais exagerados ou maiores. Talvez fosse interessante testar quais movimentos corporais aquelas palavras provocam. Pode ser algo discutível, pois entramos na velha e infindável discussão do que pode ser considerado ou não dança. Seria a amplitude, quantidade ou qualidade de movimentos fatores definidores da dança? O fato do tema ainda ser colocado em pauta e de seguir fomentando muitos minutos de discussões e elaborações sobre ele parece revelar que classificar o que é ou não dança continua sendo relevante para muitos, embora eu mesma considere este um assunto também ultrapassado.

Colocando esse detalhe de lado por não ser o foco destas linhas, Gordança traz pra cena um outro tema que julgo importante, um verdadeiro tabu na dança, principalmente na dança clássica: a gordofobia. Acho que todas as pessoas que estiveram em alguma aula de dança alguma vez na vida passaram por essa sensação de sentirem que seu corpo, forma ou peso não estavam adequados àquela prática. Os grandes espelhos, as imagens de grandes nomes da arte (todos/as pertencentes a um mesmo padrão físico), o contínuo reforço de um padrão a ser atingido e mantido, os modelos e tecidos dos figurinos, contribuem para que sigamos criando imagens e padrões mentais que reforçam a busca por uma forma magra, alta e longilínea. Já aprendi que não devemos falar do corpo do outro e que magreza não é sinônimo de saúde, bem como gordura não é sinônimo de doença, mas certos padrões construídos em anos e anos de aulas de ballet seguem presentes comigo e guiam olhares e gostos por certo não mais verbalizados, mas que seguem incorporados.

Apesar da pertinência e relevância do tema e das reflexões que ele suscita, acho que a palestra dançada desvia um pouco do foco quando a intérprete passa a relatar vivências relacionadas à sua mãe e avó. Eu entendo o momento como uma necessidade que nós mulheres sentimos de falar sobre as mulheres importantes das nossas vidas. Deve ser porque a sociedade patriarcal em que vivemos faz questão de esconder as conquistas e existências das mulheres. Em Gordança, no entanto, embora a "presença" destas mulheres nos demonstre como esses padrões físicos são impostos a todas, mesmo aquelas que não dançam, parece que, cenicamente e para o reforço da mensagem que julgo ser central à obra, a apresentação destas mulheres não se configura fator fundamental para a compreensão sobre a gordofobia na dança.

Por último, quero ressaltar a excelência técnica de Gordança, a encantadora presença cênica de Renata e a satisfação de ver um tema tão relevante e pouco comentado como a gordofobia na dança e na nossa sociedade ser colocado á luz de forma poética e engraçada, gerando boas reflexões e outras, como este texto, nem tanto assim. De toda forma, é bom retomar a escrita mesmo que ainda enferrujada, atrasada e desordenadamente.


Ficha técnica Gordança - uma palestra dançada:
Direção: Guadalupe Casal
Elenco: Renata Teixeira
Coreografia: Renata Teixeira
Dramaturgia: Renata Teixeira e Patrícia Fagundes, costurando textos de diversas autoras e referências
Criação de lux: Vigo Cigolini
Operação de luz: Anne Plein
Operação de vídeos: Ursula Collischonn
Desenho de som/trilha sonora e operação de som: Casemiro Azevedo
Criação e edição de vídeos: Renata Teixeira e Duda Rhoden
Cenografia: criação coletiva
Concepção de figurino: Renata Teixeira
Produção: Renata Teixeira e Renata Stein
Mídias e produção de conteúdo: Renata Stein
Arte gráfica: Luiz Argimon e Renata Stein
Fotografia cênica: Débora Koller
Assessoria de imprensa: Renata Stein

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

VAZIO IMENSO

Faz algum tempo que quero escrever sobre a vida sem a minha mãe. A vida neste vazio enorme que é a ausência dessa figura que foi tão importante na minha formação enquanto ser neste mundo. Faz um ano que comecei a escrever este texto, graças a um processo criativo no qual estava inserida. A criação está em pausa e o texto finalmente chegou numa versão publicável.

Minha mãe se chamava Celma Silveira Silva, tinha 70 anos, e faleceu ao amanhecer do dia 11 de janeiro de 2019. A vida, no entanto, já havia mudado antes desta data. A vida mudou quando um cansaço persistente e um pouco de falta de ar, transformaram-se em uma primeira internação hospitalar e um diagnóstico: pneumonite instersticial aguda grave. Lembro de colocar no google esse nome feio e começar a chorar ao ler que a doença não tinha cura e que a sobrevida era de 2 a 5 anos após o diagnóstico e condicionada ao uso de pesados corticoides. Corticoides que minha mãe não podia usar por problemas pré existentes no fígado.

Aqui, abro um parênteses para o que vivemos durante as fases mais agudas desta pandemia de covid, vivências que trouxeram todos aqueles dias de hospital de volta. As vistas na UTI, as conversas com o médico, a progressão da doença. A pandemia potencializou o meu luto. Tudo porque a covid causa nos pulmões dos infectados esta mesma inflamação crônica que vitimou minha mãe. Os procedimentos médicos descritos no tratamento de um infectado pelo coronavírus são muito parecidos com aqueles que eu vi minha mãe passar. Ela também morreu entubada numa UTI, assim como o meu irmão. Ele se chamava Carlos Remi Rocha Silva, tinha 66 anos, e faleceu às 22h05 do dia 05 de abril de 2021 em decorrência da infecção por covid-19. A diferença fundamental é que nós podíamos estar com minha mãe nos momentos de visita e também pudemos nos despedir dela com o conforto dos amigos e familiares. Meu irmão, porque ficou internado 40 dias e já não tinha o vírus quando faleceu, também teve uma despedida e enterro mais ou menos normais. Digo mais ou menos, porque ele morava na Bahia e, por causa do descontrole pandêmico vivido no Brasil à época da sua morte, nós não pudemos prestar as últimas homenagens lá de pertinho. A família não pode se reunir, se abraçar, se fortalecer presencialmente. “Ir” ao velório do meu irmão e padrinho de batismo por video-chamada no whatsapp foi uma das coisas mais tétricas e arrasadoras pelas quais passei nos últimos anos. A outra foi carregar a urna com as cinzas da minha mãe pra lá e pra cá, colocar no armário, tirar do armário, colocar sobre a cama, levar para o local do descanso final, sentir as cinzas dela embaixo das minhas unhas durante a dispersão das mesmas. Enfim, sensações que ninguém imagina sentir.

Fechando este parêntese que também fala de outra ausência, volto a descrever meus últimos meses com minha progenitora. Eu acompanhei minha mãe por todas as alas do hospital. Ela passou por quatro internações desde o diagnóstico até a partida. (4 internações, 40 dias, qual será a mágica por trás do número quatro?) A cada internação, ela saía do hospital mais debilitada, menos parecida com a mulher ativa, atuante, sempre preocupada com os outros e resolvendo todos os problemas de todos, tendo sido chamada para isso ou não. Lembro de estar sentada ao lado do caixão dela no velório e pensar exatamente nas muitas horas que compartilhamos no Hospital Ernesto Dornelles. O hospital que viu eu e minhas irmãs nascerem, viu minha mãe partir. Eu fiquei com ela até o carro da funerária levar o corpo para ser preparado. Então, acompanhei ela do quarto, passando pela UTI e chegando ao necrotério.

Durante os meses de entradas e saídas do hospital, eu estava em meio a outro processo criativo. Estávamos construindo o espetáculo Às vezes eu Kahlo, que fala sobre a artista plástica Frida Kahlo. Minha mãe dizia para as enfermeiras que eu estava fazendo laboratório para o espetáculo ao passar tempo com ela no hospital. De uma certa forma, ver o declínio físico da minha mãe foi sim laboratório, mas não me preparou para a ausência dela. Minha mãe cumpriu exemplarmente a função do cuidado que é historicamente delegada às mulheres. Com sua partida, a casa não estava mais organizada, o pai não tinha mais quem o cuidasse, ninguém mais estava no controle das situações, ninguém mais voltava do centro com sacolas de compra e sempre, sempre com algum presente para mim e minhas irmãs. Digo com sua partida, pois de dentro do hospital ela ainda comandou a reforma do banheiro do quarto dela, ainda tentou organizar as contas, os cuidados com o pai, a vida familiar. Ela não chegou a ver o banheiro reformado. Eu também herdei roupas dela que vieram ainda com a etiqueta. Peças que ela nem chegou a usar...

Enfim, ela se foi e no lugar ficou um imenso vazio. Aquelas e aqueles que tiveram a oportunidade de terem mães que cuidam, protegem e amam em suas vidas sabem que a saudade que fica quando elas se vão é enorme. É um buraco que não tem como ser preenchido. Fica um vácuo. Parece que, de uma hora para outra, e, definitivamente, viramos adultos. O sentimento é de estar sozinhos e sozinhas nesta jornada mesmo que ainda tenhamos familiares e amores que estejam conosco. Dizem que amor de mãe é único e acredito que seja mesmo e, exatamente por esta razão, é tão difícil seguir sem a presença delas, sem as mensagens no whats, sem as cobranças por resultados, sem o olhar na platéia, sem os presentes, sem as ligações pedindo visitas e exigindo a presença. A figura materna é algo tao fundamental na nossa cultura que deveríamos nos preparar melhor para viver sem este ser que encarna o ideal da maternidade. Aliás, essa verdadeira obrigação imposta às mulheres de amar, cuidar, prover e proteger também não ajuda os filhos e filhas a suportarem, entenderem a seguirem suas caminhadas com essa ausência.

Eu não quero ser mãe. Entre muitas outras coisas, não quero a responsabilidade do cuidado constante e de ser este ente cuja presença é tão onipresente e necessária que a ausência passa a ser sentida para todo o sempre. Não quero esse “poder”. Alguns vão dizer que é egoísmo, outros vão dizer que “daqui a pouco vou ter vontade de”, mas o fato é que não desejo desempenhar o papel materno. Conviver com outras mães e, especialmente com a minha, fez-me entender que a maternidade não pode ser compulsória. Ela precisa ser desejada e muito. Pra além disso, para o maternar ser uma experiência rica e gratificante para a mãe e as filhas e filhos, é preciso ter uma rede de apoio à mãe que não costuma existir. Ao contrário, vemos mulheres absolutamente sobrecarregadas, cansadas, exauridas e que, ainda por cima, são cobradas diariamente para desempenharem funções a elas impostas. Funções que devem ser feitas de determinada forma e atingirem resultados pre-estabelecidos.

Por fim, embora a discussão sobre o papel da mulher na sociedade seja absolutamente relevante e atual, este texto já está longo e, se eu não fechar mais este parêntese, ele não chegará nunca a outras pessoas que possam se interessar pelo pouco descrito aqui. E assim termino, meio abruptamente e direto aqui deste lugar de saudade e vazio. Vazio porque uma presença que sempre esteve aqui, durante toda a minha vida, já não pode ser sentida. A vida não é mais a mesma, mas ela segue sempre em frente. Sigamos também!

quinta-feira, 3 de maio de 2018

REPENSANDO A MINHA DANÇA

Reconhecimento, valorização, gratidão, pertencimento, palavras que estão girando na minha cabeça desde a semana passada. Mais que palavras, sensações provocadas por eventos que presenciei e, de certa forma, fui parte.
Começando pelo lado bom, fui assistir ao espetáculo Maestranza do Tablado Andaluz, escola na qual estive por quase 15 anos (saí de lá em dezembro do ano passado, teria completado 15 anos em maio de 2018). Já na entrada do estacionamento, tive a primeira experiência interessante da noite, quando o funcionário do local me olhou e disse: Mas tu não é bailarina? Que coisa feliz quando alguém me acha com cara de bailarina. Não sei se tenho o corpo, a técnica, a expressão, enfim, o aparato necessário para ser de fato bailarina, mas, pelo menos, o desejo e o rosto eu tenho. Bom, voltemos ao teatro, tive um misto de sensações ao sentar naquela poltrona. Em alguns momentos, vontade de estar no palco celebrando o que seriam meus 15 anos naquele grupo, em outros, a felicidade e tranquilidade de estar do lado de fora, apenas assistindo aos novos rumos que a escola e companhia estão tomando. Continuando com as experiências, outras pessoas me reconheceram, perguntaram se eu também não ia dançar. Foi bom. É bom saber que as pessoas relacionam teu nome, tua fisionomia com algo a que tu te dedicas há anos, neste caso, o flamenco. Muito além disto, fiquei imensamente feliz quando ex-alunos vieram me dar um abraço carinhoso, alguns até agradeceram pelos ensinamentos que os ajudaram a estar ali naquele palco vivendo aquele momento. Reconhecimento, gratidão, valorização... Foi muito bom receber tudo isso.
Foi bom porque estava desde a última sexta, quando fui no lançamento do livro de 10 anos do Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre, sentindo-me um peixe fora d'água. Eu estou no livro, fui uma das alunas da primeira turma do grupo lá em 2008, participei de dois espetáculos Folias Fellinianas e ...ou algo assim que me intrigue, porém, poucas pessoas lembram da minha passagem por lá. As pessoas se surpreendem quando digo que fui do grupo. Pode ser porque saí do grupo e nunca mais voltei nem como aluna, nem como professora, nem em qualquer outra função que pudesse ser interessante para mim ou para o grupo. Pode ser porque eu não seja a pessoa mais política e simpática do meio da dança de Porto Alegre, o fato é que muitos dos meus colegas daquela turma tiveram trajetórias parecidas com a minha e são lembrados e reconhecidos pelo tempo no grupo e eu, todavia, não. Não estou falando isso para fazer queixa, reclamação ou seja lá o que possa parecer. Isso é só uma constatação que talvez seja mais importante para mim do que para qualquer outra pessoa. É só uma questão bem pessoal de se sentir parte de alguma coisa, sabe?
Enfim, eu me senti tão distante daquilo tudo que nem consegui executar a performance que eu tinha pensado em levar e me comprometido em fazer na festa do lançamento do livro. Eu fiquei olhando aquela gente dançando na fila dos autógrafos e me senti tão longe deles. Minhas performances são todas tão sofridas, falam de coisas tão "pesadas", que achei que ia destoar daquela felicidade, leveza, daquela necessidade de se mover com a música. Saí da festa de fininho me achando a velha que queria sentar para ler o livro num lugar mais claro, com menos volume de som e sem todas aquelas pessoas que sentem essa necessidade louca de sair dançando de pés descalços e se rolando no chão em qualquer música e em qualquer momento. É uma urgência de movimentos que eu não tenho no meu corpo. E isso também não é uma crítica ao pessoal que estava dançando loucamente na festa, é, novamente, uma constatação do quanto eu não tenho essa necessidade de sair dançando por aí sem motivo algum além da felicidade de mover-se.
Pode ser a idade, as contraturas, as dores, a falta de repouso, o sair correndo da aula para ir pro ensaio, o fato é que eu não sou mais a pessoa que ia dançando pras aulas de ballet aos doze anos de idade. Eu não sou mais aquela pessoa que escreveu aquele depoimento pro livro dos dez anos há uns dois anos atrás. Muito do que está ali é verdade e sempre será. O grupo realizou o meu sonho antigo de fazer aulas todos os dias, conheci pessoas incríveis ali, professores maravilhosos, adquiri conhecimentos que sigo desenvolvendo ou tentando desenvolver, mas algo muito profundo mudou em mim nos últimos tempos. Para começar, mudei minha percepção sobre premiações e a forma como os bailarinos aqui da capital gaúcha fazem sua formação profissional, mas, mais importante que isso, percebi que não tenho essa urgência pelo movimento. Não me entendam mal, quero dançar, amo a dança, é minha profissão, mas isso tudo aparece de outro forma em mim neste momento. Estes dias me disseram que sou muito racional, e acho que pode ser isso mesmo. Eu, provavelmente, estou racionalizando demais minha própria dança, não sei, na verdade, não pensei seriamente sobre isso. Só fiquei com vontade de escrever sobre estas sensações tão contraditórias que estes dois eventos me trouxeram.
Enfim, receber o reconhecimento pelo meu trabalho com a dança, seja como professora ou bailarina, de pessoas que foram atingidas por ele de alguma forma me fez sentir parte dessa dança que acontece aqui neste local, nesta cidade, entre meus pares. Acho que sentir-se parte de tudo isso incentiva para continuarmos resistindo, lutando, pensando, criando, correndo atrás da máquina, enfim, dançando.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CURSOS DE FLAMENCO EM FEVEREIRO

Semana que vem, de 19 a 22 de fevereiro, encerramos os cursos de dança flamenca do verão 2018 em Novo Hamburgo e Canoas.

O curso em Novo Hamburgo apresenta a técnica básica para tocar as castanholas e para bailar com o leque ou abanico, como é chamado em espanhol. São duas horas de aula na segunda dia 19, das 19h30 às 21h30, no Estúdio de Danças Juliana Lorenzoni.


O curso em Canoas é voltado para o baile flamenco. São três aulas, de 1h30 de duração cada, onde o aluno entra em contato com a técnica específica de corpo, braços e sapateado utilizados na dança flamenca. As aulas podem ser frequentadas por alunos de 8 a 80 anos, homens e mulheres, iniciantes ou que já dançam flamenco. As aulas serão realizadas no novo endereço do Grazi Silveira Dança Flamenca em Canoas: Rua Regente Feijó, 274, Centro.