domingo, 21 de junho de 2026

BUTOH EM PORTO ALEGRE

Em 2025 pude ver dois trabalhos de butoh de Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama: Dezoito Estações de Outono e Mares e Nuvens Flutuantes. Demorei muito para conseguir me organizar para escrever sobre os trabalhos, o que torna a análise um tanto quanto esvaziada pelo tempo.

Os dois trabalhos assistidos em 2025 tem atmosferas absolutamente diferentes. Uma das coisas mais interessantes nas propostas cênicas da dupla, para mim, é que os dois intérpretes tem características bem distintas entre eles. Na minha ignorância, sempre conectei o butoh a movimentos mais calmos, muito lentos, quase imperceptíveis... É interessante ver que Hiroshi, o representante japonês da dupla, não segue este padrão. Claro que existem momentos em que ele faz movimentações mais controladas, mas ele constantemente quebra a expectativa. Em Dezoito Estações de Outono, por exemplo, ele aparece de micro vestido feminino, orelhas de coelho ou como um agricultor de arroz utilizando música e movimentações com ritmo mais agitado e absolutamente diferentes das cenas protagonizadas por Ana, que traz aquela lentidão e absoluto controle de movimentos que tão claramente conectamos, ou eu conecto mais claramente, ao butoh. 

Estas mudanças constantes de dinâmica são a característica do butoh que mais relaciono com o flamenco. Já há algum tempo, aprendi que um dos criadores do butoh, Kazuo Ohno, foi profundamente impactado por uma apresentação da bailaora flamenca Antonia Mercé y Luque, conhecida como "La Argentina". Essas mudanças constantes e, por vezes abruptas, de dinâmica podem ser uma inspiração advinda do flamenco, linguagem que também utiliza estas alterações em sua estrutura musical e coreográfica. Obviamente que no caso do butoh, a movimentação lenta atinge o extremo, exigindo um controle corporal, de transferência de peso, realmente impressionantes. Um controle que sempre relaciono com a filosofia oriental de prestar atenção no presente. Só quem consegue prestar muita atenção em cada micro movimento do próprio corpo, consegue alcançar o grau de lentidão de algumas movimentações que vemos no butoh. É preciso estar inteiro naquele momento. Aqui no ocidente normalizamos o fato de fazer uma coisa e pensar em muitas outras enquanto isso. Não desenvolvemos esta capacidade de concentrar nossa atenção naquela ação que desempenhamos no momento em que ela ocorre. No flamenco, por exemplo, estamos contando o compás, enviando comandos aos neurônios motores e expressando as diferentes emoções que nos trazem as letras e melodias. E sim, o flamenco é ocidental mesmo que tenha influências vindas de outras regiões do globo.

Voltando ao palco, outra característica que chama atenção em Ana e Hiroshi é a conexão com a música. Todas as cenas dos intérpretes, suas movimentações, trocas de figurinos e elementos, tudo está absolutamente dentro da música. Trilha que, em Dezoito Estações de Outono é um tanto quanto inesperada, incluindo uma composição da banda Queen entre outros temas. Em falando de trilha, é preciso destacar a belíssima edição feita na música do solo "A Morte do Cisne", de Camille Saint-Saëns. Aliás, a trajetória em diagonal de Ana Medeiros é um dos pontos altos de Dezoito Estações de Outono. É um momento de tristeza, controle corporal e beleza simbólica impressionantes. Outro momento muito bonito ocorreu antes mesmo do início do trabalho, quando uma nuvem de "fog" parecia dançar pelo palco ao som de uma composição musical japonesa. A nuvem de fumaça cênica parecia um dragão oriental investigando o palco e sobrevoando a plateia.

A transição entre as cenas do espetáculo é, no entanto, algo que poderia ser melhor trabalhado. Como são somente dois intérpretes em cena e as cenas são basicamente solos, a dupla tentou quebrar a dinâmica: intérprete 1, intérprete 2, intérprete 1, interprete 2 e, em alguns momentos havia dois solos de Hiroshi seguidos ou dois solos de Ana. A questão foi o tempo para esta transição, já que cada momento cênico exigia uma troca completa de figurino e acessórios, o que, em alguns momentos, acabou demorando mais tempo do que o palco vazio "prendeu" a atenção da plateia. Esta questão das transições cênicas foi melhor elaborada em Mares e Nuvens Flutuantes, já que Ana Medeiros permanece em cena por longos momentos, quase imóvel, mas dividindo presença e dando mais fluidez ao início da obra.

Assisti Mares e Nuvens Flutuantes no Galpão Floresta Cultura             O espaço cênico intimista favoreceu o painel de nuvens ao fundo do palco, que traziam esta atmosfera que poderia ser de nuvens no céu ou das espumas brancas das ondas no oceano. Um cenário que por vezes parecia mover-se, embora isso não ocorra. Trata-se apenas de um efeito visual de iluminação sobre as formas onduladas. Mais uma vez Ana Medeiros é primorosa no controle corporal e das emoções. Quanto a Hiroshi, é uma pena que minha total falta de conhecimento do idioma tenha impossibilitado a compreensão sobre o texto declamado por ele em japonês. O tom de voz parecia um tanto amedrontado. Estaria ele falando sobre o passado ou sobre o temor de um futuro sobre o qual não conseguimos influir positivamente? As duas leituras me parecem possíveis por sua movimentação e tom de voz. Aliás, a atmosfera toda de Mares e Nuves Flutuantes percorre esse caminho entre o temor do que não conseguimos prever e as lembranças boas e ruins do que já passamos. Outro ponto de destaque da obra são os figurinos, com destaque para o vestido amarelo estruturado de Ana Medeiros.

Para finalizar, quero destacar que Porto Alegre tem sorte de ter uma dupla de artistas de butoh tão produtiva e criativa. Eles já tem um novo trabalho programado para estrear em 2026, o que já os torna um dos coletivos mais profícuos da cena atual na capital gaúcha. Por aqui, já estamos a espera desta nova proposta cênica.


Ficha Técnica Dezoito Estações de Outono

Direção: Etsuko Ohno
Assistente de direção: Mikako Ono
Elenco: Ana Medeiros, Hiroshi Nishiyama
Iluminação: Carol Zimmer
Cenário: Rodrigo Shalako
Técnica de som: Virgínia Cigolini
Assessoria de Imprensa: Matheus Pannebecker


Ficha Técnica Mares e Nuvens Flutuantes

Direção: Etsuko Ohno
Assistente de direção: Mikako Ohno e Keiko Ono
Dança: Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama
Iluminação: Carol Zimmer
Operação de luz: Bruna Casali
Figurinos: Etsuko Ohno, Rei Kawakubo
Confecção de figurinos: Margarida Rache
Cenografia e cenotécnico: Rodrigo Shalako
Desenho Sonoro e intervenções na Trilha Sonora: Casemiro Azevedo
Operação de som: Dy Fernnandis
Produção executiva: Betina Carminatti
Assistente de produção e contrarregra: Ursula Collischönn
Maquiagem: Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama
Assessoria de Imprensa: Mathues Pannebecker
Fotos: Fábio Zambom
Arte gráfica: Paulo de Araújo
Elaboração do projeto: Cibele Donato