Numa quarta-feira de junho, assisti na Sala Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mário Quintana ao espetáculo Geppetto, protagonizado por Fabio Cuelli. O espetáculo de teatro de bonecos é comovente e muito bem realizado. Cenário, figurino interpretação, luz, trilha sonora, direção, tudo muito bem construído e trabalhado. A cena coreográfica com inspiração flamenca deu um colorido sonoro e de movimentação para a obra. Nem o longo texto em italiano, que não compreendi, foi capaz de minimizar o impacto emocional do espetáculo. Acho que é porque vivo há 8 anos esta tarefa de cuidar de um pai idoso.
Identifiquei-me com aquele filho que se vê obrigado a cuidar de um pai cuja mente já não responde tão bem às regras e convenções da vida regular e cotidiana das outras pessoas. Os momentos de descontrole e de carinho que apareceram na cena são parte deste convívio. No meu caso, morei mais de 30 anos com meu pai, ele não é um desconhecido, mas o fato de ser quase centenário, ele tem 98 anos, dificulta em muito a relação. Casar e cuidar de um homem 20 anos mais velho foi uma escolha da minha mãe, não minha. Ela foi fiel a sua escolha e tarefa autoimposta por mais de 40 anos, mas, ao falecer aos 70 anos, ela acabou gerando uma demanda não idealizada por mim e minhas irmãs. Principalmente por mim, uma mulher de 45 anos que escolheu não ter filhos e cujos estudos feministas causam uma certa revolta por ser relegada a um papel de cuidado que não escolheu e não pretendia exercer.
Uma pessoa de 98 anos com demência é como um grande bebê desobediente e impulsivo. Outra identificação com um momento de Geppetto. Cuidar de um pai ou mãe idoso é como virar pai ou mãe dos nossos genitores. No caso do meu pai, o fato de ter nascido ainda na década de 30, faz com que estruturas patriarcais e machistas estejam muito presentes numa pessoa eu acredito só alcançou esta idade graças às mulheres que doaram suas vidas para o cuidado e manutenção dele, seja física ou emocionalmente. As mulheres são educadas para cuidar e os homens para serem cuidados. Eles simplesmente não se importam por causar prejuízo a quem está cuidando deles. Eles querem que suas demandas sejam atendidas. Ninguém é mais importante do que eles. É assim que a maioria dos homens ainda é criado. Pode parecer cruel, mas sempre penso que, se minha mãe estivesse viva, ela mesma escolheria um residencial ou uma equipe de cuidados para não gerar mais acúmulos para as filhas. Ela já agia assim quando estava hospitalizada. Meu pai, ao contrário, acha que as filhas tem obrigação de cuidar dele não importa o quanto da vida delas precise parar para que o cuidado com ele siga do jeito que ele entende ser melhor.
Para além disso, a sociedade ocidental que vivemos não prepara ninguém para a velhice. Não estamos preparados para envelhecer e também não estamos preparados para lidar com a velhice dos entes queridos. Na verdade, acho que as mulheres tem um pouco mais de preparo para enfrentar esta fase da vida. Como estão acostumadas ao cuidado, conseguem identificar quando precisam de ajuda e também são capazes de auto gerir os processos necessários para garantirem este cuidado desde que tenham condições financeiras para tanto. Nunca esqueço de uma vizinha que tínhamos em Canoas. Quando chegou o momento, ela mesma visitou residenciais geriátricos, escolheu o que mais gostou e se mudou para lá. Ela não quis morar com os filhos. Preferiu seguir independente na vizinhança onde viveu por mais de 70 anos. Ela não é um caso isolado. Conheço muitas histórias de mulheres que fizeram os mesmo.
Os homens, no entanto, não seguem o mesmo caminho. Quando meu pai se viu viúvo pela segunda vez, o que fez foi ligar para todas as senhoras viúvas ou solteiras da Igreja que frequentava propondo casamento. Para ele, a solução para a velhice é ter uma mulher em casa para cuidar da comida, da limpeza, do sexo e do amor. Não me entendam mal, não é um julgamento moral, é uma constatação. Os homens ainda são educados esperando que as mulheres resolvam as vidas deles. Saem das casas das mães para a casa das esposas e seguem reproduzindo padrões. As mulheres, por sua vez, estiveram lutando pelas últimas décadas para saírem desta relação de cuidado, mas movimentos conservadores e misóginos difundidos pelas redes sociais comprovam que existe muita resistência por parte dos homens em perderem estes privilégios estruturalmente construídos e que facilitam suas existências.
Geppetto me comoveu e me fez refletir sobre tudo isso. Pela sobrecarga de afazeres este texto demorou a sair, mas eis aqui um desabafo e um início de escrita sobre estes temas tão difíceis e que por muitas vezes são imposições da vida. Reflexões e pensamentos que o sentimento de culpa muitas vezes nos impede de externar. Obrigada aos envolvidos por colocarem esta temática em cena.
Ficha Técnica Geppetto
Direção: Liane Venturella
Assistência de direção: Alexandre Borin
Texto: Nelson Diniz
Concepção e atuação: Fábio Cuelli
Direção de arte: Maurício Casiraghi
Corpo da marionete e corpo do boneco híbrido: Mario de Ballentti
Construção das cabeças: Fábio Cuelli
Cenografia: Maurício Casiraghi, Mário de Ballentti e João Luiz Cuelli
Projeto de Iluminação: Maurício Casiraghi
Execução do projeto de iluminação: Sandro Martins
Trilha sonora original: Beto Scopel
Canção original (composta e interpretada por Adriano Iurissevich): Dorme Figlio mio
Figurinos: Vitor Pedroso
Produção: Fábio Cuelli
Gestão de redes sociais: Mariana Rosa
Realização: Máscara EnCena e Miseri Coloni
Financiamento de Montagem: Financiarte 2013 - SMC Caxias do Sul