Décadas depois de vê-la dançar em Porto Alegre, tive a felicidade de ver novamente no palco Sílvia Wolff com seu espetáculo solo Pena no dia 05 de novembro. A apresentação fez parte da segunda edição do edital Atos e Cenas promovido pelo Instituto de Artes Cênicas do Rio Grande do Sul, em parceria com a Fundação Teatro São Pedro e o Sesc RS, e que ocupou semanalmente o Teatro Oficina Olga Reverbel nas noites de quarta-feira entre os meses de julho e dezembro de 2025.
Foi uma grata surpresa ver Sílvia nesta proposta tão diferente da imagem que eu tinha dela de bailarina clássica, com sapatilhas, tutu e no papel de fada ou princesa, seres que tão comumente habitam os ballets de repertório. Em Pena, Sílvia traz pra cena um corpo que se recusou a ser escondido, apagado ou impedido de dançar. O espetáculo é bastante emocionante pra quem conhece a trajetóia desta artista que sofreu um AVC aos 34 anos e ficou com restrições de movimentos. Pena fala sobre isso, sobre este corpo e as formas que ele encontrou para seguir dançando. Sílvia segue sendo uma bailarina capaz de prender a atenção do público. Sozinha no palco por uma hora, ela transita entre momentos de raiva, de sexualidade, de interação com o público, de risos, de obssessão e de contemplação. O que não vemos em cena é autocomiseração.
Silvia reinvindica sua trajetória como bailarina clássica ao mesmo tempo que reposiciona seu corpo na cena, fazendo uma dança mais térrea, com mais contato com o solo em comparação ao balé clássico. Aliás, a disposição do público na sala dificultou a visibilidade das pessoas que estavam sentadas nas filas mais atrás na plateia. As duas fileiras de cadeiras ao nível do solo acabaram deixando as pessoas sentadas nestas fileiras na mesma altura ou até mais altas do que Silvia quando esta se encontrava sentada ou deitada no chão. Entendi que o caráter intimista da proposta pede que o público esteja bem próximo à intérprete, mas metade da plateia acabou assistindo a obra de pé, já que não tinha como ver toda a cena sentados na terceira ou quarta fileiras da plateia.
Além da dificldade para visualizar alguns momentos da intérprete em cena, Pena tem uma dramartugia um pouco truncada em alguns momentos. Por duas ou três vezes um tema ou uma ação ressurgem sem agregar algum elemento realmente novo a cena, quase como se uma palavra fosse pronunciada sem contexto num diálogo para completar uma frase já concluída e depois de outras duas ou três frases já terem sido ditas entre a palavra solta e a frase em que ela deveria estar inserida. Aquela palavra fica solta, fora de contexto, parece que volta a um assunto que já não é o que está sendo falado no novo momento. Se fosse eu na direção do trabalho, talvez tentaria adicionar a palavra no momento, nesta analogia construída aqui, em que a primeira frase era dita. Acho que seria mais interessante esgotar o assunto antes de começar outro ou, se fosse pra retomar algum assunto, trazer algum novo aporte ao texto nesta retomada.
Ao mesmo tempo, esse vai e volta em momentos e situações pode refletir essa trajetória de reencontro com a dança que, com certeza, Sílvia percorreu nos últimos anos. Ela desenvolveu novas técnicas ou habilidades e todos que trabalham com o corpo sabem que este processo de construção corporal não é algo linear e sempre crescente. A dança, a técnica, as habilidades corporais e expressivas vão se configurando numa caminhada cheia de avanços, pausas e, por vezes, retrocessos. Olhando por este lado, pode ser que a dramaturgia que ia e voltava em certas imagens ou ações quizesse fazer alusão a esta trajetória de um corpo que se reconstrói enquanto corpo dançante.
Por falar em revisitar ou aludir, a trilha sonora composta por Daniel Wolff traz releituras impactantes e bem realizadas de trechos famosos de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. A trilha auxilia a dramaturgia que, a todo tempo, relembra os tempos de bailarina clássica, mas expõe a nova realidade desse corpo de uma mulher com deficiência que recriou sua dança e que reivindica sua possibilidade de dançar. Um novo corpo, que não é simétrico, porque não pode sê-lo, mas que segue belo, potente e capaz de emocionar, chocar, desconfortar e comunicar com o público. Um corpo que segue em cena, quebrando expectativas e construindo sua dança.
Ficha Técnica Pena
Bailarina Intérprete-criadora: Silvia Wolff
Direção: Flávio Campos
Produção: Lucca Adams Pilla
Assessoria de imprensa: Roberta Amaral
Cenografia e figurinos: Flávio Campos e Sílvia Wolff
Trilha sonora original: Daniel Wolff
Trilha sonora adicional: Peter Ilich Tchaikovsky, Ole Torkeisen
Iluminação: Raquel Guerra
Sonoplastia: Walcker Martini
Assistente de produção: Gabrielly Neumann
Design gráfico: Pedro Henrique Azevedo