Numa noite de sábado em que eu não estava cuidando de um pai idoso e não vivíamos um momento de caos climático em Porto Alegre, resolvemos sair pra ouvir música. Estava tudo bem até eu resolver ir ao banheiro antes de ir embora, pois já eram quase 2h. Acabei me irritando com essa gente que frequenta a noite classe média da capital dos gaúchos. Eu não estou "ficando velha", acho que, para certas coisas, sempre fui uma pessoa mais exigente ou até chata, características frequentemente identificadas com pessoas que já estão há mais tempo nesta vida.
Quando chego ao banheiro do bar, que é unissex e tem duas cabines com portas, eis que não consigo.usar o local, pois duas pessoas embriagadas estão "passando mal", uma em cada cabine. Depois de uns minutos elaborando a situação e vendo a progressão da coisa, percebo que não tem como ir ao banheiro e resolvo ir embora. Na saída do banheiro, encontro uma pessoa conhecida e aviso ela que não tinha como usar os banheiros, pois ambos estavam interditados por duas pessoas alcoolizadas. Aí, funcionários do local e amigos das pessoas no banheiro intervém na conversa e tentam dizer que estão resolvendo a situação e que eu deveria entender e esperar porque aquelas pessoas são frequentadoras assíduas do local cujo nome não vem ao caso. Resultado: eu, que estou com a bexiga cheia e já com duas taças de vinho na cabeça, acabo numa discussão ridícula por não "acolher" a embriaguez autoimposta de duas pessoas maiores de 30 anos num local de uso coletivo. Sim, o bar pode ser propriedade de alguém, mas é pensado para ser usado por muitas pessoas, ou seja, é pensado para a coletividade e não enquanto clube para um pequeno grupo de pessoas selecionadas. Se esse fosse o caso, deveria haver um anúncio sobre isso em algum local do estabelecimento.
E sim, é "problema de gente branca", como dizem na internet, mas uma ida ao banheiro acabou gerando uma reflexão sobre a vida em coletivo. Como eu já disse antes, acho que sempre "fui velha" para entender a imaturidade alheia, para "acolher" gente que não se importa com a responsabilidade que está jogando em cima de outras pessoas. Obviamente que todo mundo passa dos limites em algum momento da vida, mas as pessoas deveriam saber respeitar as regras da boa convivência em espaços coletivos, especialmente depois de uma certa idade na qual, em teoria, certos aprendizados e comportamentos irresponsáveis não deveriam mais acontecer. Sim, porque beber álcool além do próprio limite é uma escolha, principalmente para quem já tem mais de 30 anos. Passar mal de tanto beber na rua, num espaço coletivo, vai acabar afetando outras pessoas, como a amiga que precisou acompanhar a pessoa alcoolizada dentro do banheiro, já que ela se colocou em situação de vulnerabilidade, ou as pessoas que ficaram impossibilitadas de usar o banheiro. Repito, consumir bebidas alcoólicas; entorpecentes e/ou outras substâncias que alteram nossa percepção em determinado momento são escolhas. Aquela pessoa não foi drogada a força ou contra a vontade.
O fato de ser uma mulher ainda causou outras reflexões porque, infelizmente, na nossa sociedade, uma mulher alcoolizada fica muito mais vulnerável. Durante os poucos minutos que aguardei em vão a possibilidade de ir ao banheiro, ouvi um homem avisar que um outro homem já tinha chamado um uber para levar a mulher alcoolizada embora. Não entendi se pra casa dele ou dela. Até eu, que estava inclusive sendo acusada de não "acolher" a bebedeira alheia, fiquei pensando em tudo que poderia acontecer com uma mulher naquele estado. Ela pode ser roubada, estuprada, abusada... Com que direito uma pessoa se expõe a um risco desnecessário e causa preocupação nas pessoas ao redor dela? A pessoa que ia levar ela pra casa é confiável? Ela vai ficar em segurança? Vai ficar bem ou vai precisar ser levada para um serviço médico de urgência e causar ainda mais transtorno desta vez para profissionais da saúde? Quando se é jovem, inexperiente e meio sem noção das consequências dos nossos atos, situações assim acontecem e costumam ser relevadas, mas com pessoas adultas? Com mais de 40 anos? Sobrecarregar os demais com as consequências das nossas escolhas não é normal no coletivo e não deveria ser um comportamento aceitável.
Tem ainda outro ponto que fiquei pensando e discutindo de forma que ainda não entendo muito bem como aconteceu com pessoas que desconheço. Essa gente que só pensa em si, que não sabe dividir um banheiro de uso coletivo, que não se importa com as consequências que as escolhas individuais delas terão sobre os que estão ao redor delas, são essas as pessoas que vão votar na esquerda para modificar as estruturas capitalistas, patriarcais, racistas, capacitistas, etaristas e etc que vivemos? Porque muitas daquelas pessoas naquele local estavam com adesivos de candidatos de partidos de esquerda ou progressistas nas roupas. Honestamente, acabei a noite com uma sensação ruim de que estamos num beco sem saída mesmo. É preciso acolher e conciliar, sem críticas, sem reflexão. Quem tentar trazer um contraponto que cale a boca e fique em casa porque aquelas pessoas estão ali toda a semana fazendo a roda do dinheiro e do prazer girar e isso é o que importa. Os bares seguem usando a arte para atrair público, mas sem remunerar decentemente os artistas ou dar condições mínimas de um trabalho mais digno, já que o local é apertado, não tem um espaço delimitado para os artistas atuarem e não cobra ingresso fixo. Eu não estou ficando velha e nem sou moralista. Só gostaria de ter o bom convívio coletivo respeitado.
Como exigir um mundo diferente se as pessoas não percebem nem mesmo a si próprias? Uma pessoa adulta só chega ao ápice de ficar vomitando na lixeira de um banheiro na Cidade Baixa porque não conseguiu parar de beber álcool antes de chegar neste ponto. Tomar água, comer alguma coisa, ir pra casa mais cedo não foram opções. E porque os funcionários do bar (também adesivados com os mesmos candidatos) seguiram vendendo bebidas para pessoas que estavam nitidamente perdendo as condições de se autogerirem e permanecerem seguras? Essas são as pessoas que querem um outro mundo? São essas as pessoas que vão estar ao meu lado nas trincheiras, que vão segurar minha mão sem soltar, que não vão me deixar pra trás? Nem Jesus nesta causa!