domingo, 21 de dezembro de 2025

A CRISE CLIMÁTICA E A LONGEVIDADE DA DANÇA EM PORTO ALEGRE

De Gelo, da Eduardo Severino Cia de Dança, celebra os 25 anos de existência da companhia que tem histórico de trabalhos relacionados ao tema do meio ambiente, como  Planetário, de 2000; Lixo, Lixo, Severino, de 2002; Ykúà, o silenciador de um rio, de 2006; Tempestade, de 2009; Linha de convergência, de 2010 e Manchas Urbanas, de 2014. Ecos de algumas destas propostas aparecem no mais recente trabalho da companhia.

De Gelo começa no saguão do Teatro do Centro Cultural da Santa Casa onde jovens bailarinos do Espaço N caminham pelo espaço em fila com mudas de plantas nas mãos. Quando eles entram para o teatro, Eduardo Severino aparece e cochicha uma frase no ouvido de uma pessoa da platéia, que estava, naquele dia, recheada por outros nomes da dança de Porto Alegre. A frase vai se espalhando pelo público, passando de orelha em orelha, no famoso "telefone sem fio". É algo sobre o ponto de não retorno, mas não lembro exatamente da sentença (já faz alguns meses que tudo isso aconteceu). O tal ponto está próximo, avisam os cientistas, e o nome já explica tudo que precisamos saber sobre esta ameaça à vida como conhecemos neste planeta.

Em cena, uma enorme pedra de gelo derrete num lado do palco enquanto vemos as paredes, portas, escadarias, pernas, rotundas e outros urdimentos e tudo aquilo que geralmente fica atrás das cortinas dos teatros. O palco revelado era como um local onde a neve e o gelo deixaram de existir: pedras, troncos mortos, lama, tudo revelado e aparentemente fora do lugar. Mesmo entendendo o que esse plano de fundo poderia significar para a proposta cênica e vendo que os artistas utilizavam a escada que tem no centro e no fundo do palco para entrar e sair de cena, acho que alguns momentos mais delicados da iluminação perderam um pouco de desenho na cena aberta. A projeção também perdeu resolução. O pinguim projetado na porta de um camarim ficou visível, triste e poético ao memso temppo. Um pinguim perdido, fora do seu lugar, sem habitat. Os ursos polares, contudo, tiveram a visualização prejudicada e não surtiram o mesmo efeito narrativo.

Apesar dessa diferença quanto às escolhas de cenário e projeção, foi interessante ver a mistura de jovens bailarinos com um intérprete maduro, com consolidada carreira na cidade. Ver corpos mais jovens executando movimentos que já vimos outras vezes no corpo de Eduardo Severino, é a celebração de uma trajetória e a continuidade dos processos criativos das companhias independentes na cidade. Severino segue sendo uma figura imponente em cena, que transita entre movimentos fluídos e cenas grotescas. Um bailarino técnico e ao mesmo tempo expressivo que desenvolveu uma linguagem própria que, em De Gelo, pudemos ver compartilhada por um grupo de jovens bailarinos, algo não usual para a companhia que costuma trabalhar com elencos de duas ou três pessoas.

O bate-papo que seguiu ao espetáculo foi um misto de elogios a estas características artísticas com um tanto de negacionismo climático e até de gente que acredita no fim do mundo, mas é incapaz de crer na superação do sistema que acelerou os processos de degradação humana e ambiental: o capitalismo. Chega a ser meio desesperador sair de uma obra que fala sobre a crise que já vivemos e ver que tem gente na platéia que ainda duvida das ações que são necessárias para evitar as piores consequências das escolhas que nos trouxeram para o quase ponto do não-retorno. Infelizmente, a arte não é capaz de, sozinha, transformar o mundo. Não nos resta, contudo, outra alternativa, a não ser seguir tentando.


Ficha Técnica De Gelo

Direção: Eduardo Severino
Direção artística: Driko Oliveira
Intérprete-criador: Eduardo Severino
Elenco de apoio: Aléxia Chaves, Andi Goldenberg, Camila Wood, Luciana Bazanella, Luciano Benett, Du Pascal, Rafael Sky e Tami Melegari
Produção: Luka Ibarra / Lucida Desenvolvimento Cultural
Iluminação: Driko Oliveira
Trilha sonora e edição de vídeo: Sustain Produção
Fotografias: Nando Espinosa
Assessoria de Imprensa: Roberta Amaral

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