Este texto nasce depois de uma série de fotos que tirei no sítio da família num domingo de muito calor no Rio Grande do Sul. Ao pensar na legenda das imagens para uma postagem em uma rede social, o texto começou a ficar muito longo, pois vários parênteses foram abertos a partir daquilo que pensei em escrever.
Ir ao sítio da família me traz muitas recordações. São muitos anos de lembranças. Desde 2019, contudo, quando minha mãe faleceu, toda ida é também um momento de reflexão e, por vezes, de tristeza. Contemplar as flores que ela plantou naquele local que amava tanto ou ver que a vida segue seu curso, com tudo que isso significa, é um fardo emocional cada vez mais pesado. Eu sei que minha mãe mora naquele lugar. Ela está presente por todos os lados. E foi porque comecei a pensar nela que fui viajando nos pensamentos e conectando coisas que, em princípio, não estariam conectadas. Lembrei dos tempos da faculdade de jornalismo e de quando comcei a escrever uma coluna de crõnicas num site, que se chamava Capital Gaúcha, onde trabalhava lá no iníciio dos anos 2000. Minha mãe achava que eu seria apresentadora do Jornal Nacional. Tem mães que sonham mais alto que os próprios filhos. Voltando à história, quando saí do site e comecei a me dedicar novamente exclusivamente à dança, este blog surgiu. Eu tinha a vontade de seguir escrevendo. Escrevi crônicas, tentei fazer uma espécie de agenda de eventos flamencos e escrevi algumas críticas de espetáculos. Um tema que planejei estudar quando fiz Tecnologia em Dança na Ulbra, porém não desenvolvi o projeto. Por um tempo, consegui manter este local mais ativo, mas depois os blogs perderam espaço para as redes sociais e parei de publicar textos por aqui.
Ano passado, contudo, uma oficina de crítica em dança me fez retomar este espaço. Ainda estou destreinada na escrita. Ando lendo menos, lidando menos com as palavras, os 40+ também não estão ajudando muito na memória, os cuidados com meu pai se intensificaram no último ano, a rotina de trabalhos, codições de saúde e tudo mais que faz parte da rotina de uma mulher trabalhadora nesta nossa sociedade não permitem um fluxo muito constante de escrita. Neste exato momento, tennho dois textos começados que não consigo concluir e ainda faltam as criticas sobre outros 3 espetáculos que assisti e sobre os quais ainda nem consegui começar a escrever. A rotina anda muito pesada, contudo, e o tempo tem sido muito, muito escasso mesmo. Admiro quem consegue ser multitarefas. Eu tentei, mas acho que atingi um limite na escala bombril de utilidades. Creio que pegar no sono enquanto digita algo no teclado é sinal suficiente de cansaço. E também é importante refletir sobre a quantidade de coisas que produzimos. Estamos cada vez mais sobrecarregadas. Aliás, as mulheres estão sempre carregando mais peso do que deveriam. Cresci vendo minha mãe cuidar da família toda e trabalhar três turnos. Como ela aguentou tantos anos? Não é à toa que acabou com uma doença pulmonar estranha.
De volta à oficina, falamos sobre os diversos tipos de críticas. De fato, não há uma só forma de escrever. Os textos podem ser mais artísticos, mais descritivos, mas reflexivos. Um espetáculo pode gerar um poema, uma crônica. Não invalido as diferentes formas de expressão literária. Eu sou, contudo, esta pessoa que escreve em primeira pessoa, que dá a opinão, que acha que temos que escrever sobre todos os espetáculos que assistimos, principalmente se ganhamos cortesias. É cômodo escrever somente sobre aquilo que nos toca, nos sensibiliza, com aquilo que conseguimos nos relacionar. Eu tenho tentado encontrar possibilidades para a escrita. Há sempre uma relação possível. Se ela vai ser interessante para os outros, aí já é outra história. Eu entendo que é difícil dar a opinião verdadeira em Porto Algere. Na Província de Sâo Pedro, as pessoas tendem a personalizar as críticas e a criar inimizades. É óbvio que também acho que não existe mais lugar para aqueles textos que simplesmente destróem com o trabalho dos outros, mas apontar falhas ou diferenças de ponto de vista, de escolhas, não precisa ser algo ofensivo. Creio que a crítica faz parte do cenário da arte. É interessante, eu diria, necessário, ouvir, ler, descobrir como nosso trabalho é recebido. Isso faz toda a cena amadurecer, nos faz repensar processos ou negritar opções feitas.
Consegui escrever e aí surge um outro problema; jogo meus textos aqui e não aviso pra ninguém. Não mando o link pras pessoas lerem, no máximo faço um story de Instagram com o link e digo timidamente que existe um blog e que nele estão reflexões sobre arte. Nem eu estou convencida de que algo aqui seja digno de nota. Quem vai procurar num Google da vida o que a Graziela Silveira acha sobre determinado trabalho artístico? Por mais que eu já esteja atuando profissionalmente em Porto Alegre há 20 anos, as pessoas ainda não desenvolveram o dom da adivinhação. E algumas podem até me conhecer, mas não estão interessadas no que eu penso sobre coisa alguma. Fora isso, eu escrevo no meu próprio dinossáuríco blog. Não publico meus textos em meios de comunicação, aliás, nem aproveitei a oportunidade que surgiu para pleitear vaga como colunista em meios da dança, pois acreditava que essa vida jornalística estava longe da minha realidade. A pandemia me jogou de volta pra o jornalismo e ainda estou tentando abrir espaço pra a escrita na agenda.
Enfim, estou aqui escrevendo devaneios surgidos de momentos de calor num sítio. Eu só estava fotografando flores e de repente me peguei pensando e depois escrevendo sobre crítica de dança e sobre minha relação com a escrita num mundo em que as pessoas não leem mais de 5 linhas nas redes sociais. Acho que é só saudade de ter uma mãe torcendo por mim e desejando me ver na maior rede de televisão do Brasil. De uma certa forma, manter este espaço ativo é realizar um pouco estes desejos maternos. A tentativa agora é deixar neste ano o que é dele, ou seja, terminar todos os textos começados e aqueles que ainda estão só em pensamento. É preciso abrir espaço para a vida que vem com 2026.
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