Se não fosse a indicação vinda de um grupo de pessoas interessadas em desenvolver olhares e textos sobre dança e outras artes em Porto Alegre, Un burrito que me lleve não teria entrado em minha lista de trabalhos a serem vistos. O título do trabalho já indicava que seria uma proposta mais experimental com as quais não costumo conseguir estabelecer conexões.
Cheguei à Sala Álvaro Moreyra, no Centro Municipal de Cultura, sem ler a sinopse ou mais informações sobre o espetáculo, como costumo fazer, para não criar expectativas ou pré-conceitos sobre o que iria assistir. Na bilheteria, recebemos o ingresso e uma rosa vermelha. Ela obviamente faz parte da proposta. Comecei a temer se tratar de uma proposta bastante interativa, coisa que realmente não gosto, mas meu temor não se conretizou. Não sei se é porque sou artista da cena também, mas prefiro ficar quietinha na platéia apenas assistindo aos trabalhos, sem participar da cena. A plateia estava distribuída no formato arena, com uma fila de cadeiras no fundo do espaço cênico e nas laterais e mais duas no espaço geralmente destinado ao público. Como havia muitas pessoas para assistir ao trabalho apesar do domingo frio e úmido na capital gaúcha, mais uma fila de cadeiras teve que ser criada neste espaço de plateia para que ninguém ficasse de fora. É gratificante ver um bom público para assistir um trabalho experimental na cidade. Sinal de que há espaços para os diferentes grupos locais na cena portoalegrense.
Voltando ao Burrito do Coletivo Grupelho, em cena, corpos estavam jogados pelo chão ao lado de grandes bonecos de pano. A luz era baixa e demorei quase a cena toda para perceber que era uma das intérpretes deitadas no chão que tocava um trompete de quando em quando, compondo a trilha deste momento junto com um fundo gravado. Todas as ações da peça demoravam mais tempo do que eu gostaria e talvez ou muito provavelmente esse seja um desconforto idealizado pelo coletivo. A monotonia também era uma presença forte, talvez em contraponto com este mundo tão cheio de informações, imagens, cores e etc. Geralmente faz parte de propostas mais experimentais causar reações nem sempre agradáveis na platéia. Há ainda a possibilidade de ser mais uma das minhas implicâncias nesta vida e é bom mantermos isso em mente.
Tensão, cuidado, observação, movimentos metódicos, organização, tudo isso estava presente na cena em que uma intérprete levantou do meio da platéia e começou calmamente a mover os bonecos e corpos humanos, separando-os em dois grupos. Os bonecos foram colocados um sobre os outros num canto da cena, enquanto os corpos humanos foram deixados em grupo no outro lado. Ela acabou deitando-se junto com os corpos humanos. Os seres animados ergueram-se graças ao contrapeso, ao auxílio mútuo, à coletividade. Em pouco tempo estavam todos fazendo movimenos repetitivos em conjunto. Aliás, achei que poderiam haver mais variações nas repetições, mas, de novo, acho que a proposta do grupo era mesmo construir momentos longos com a mesma informação gestual e de significado sendo repetida.
Depois de uma longa e extenuante dança, uma intérprete cai ao chão, a luz apaga, quando retorna, um boneco está sobre a moça caída, olhando-a. Aí começou a cena que me causou mais tensão, na qual os intérreptes arrastavam a mulher desfalecida pelo espaço disputando-a com o boneco que agora ganhara vida e requistiva a posse sobre ela. De todo jeito, a cena da mulher sendo carregada pelo palco me deixou bem apreensiva. Fora o fato dos humanos estarem disputando aquele corpo com o boneco que ganhara vida, lembrei de uma experiência que eu vivenciei enquanto intérprete. No espetáculo Bondage, de Douglas Jung, cujo ano de realização não me recordo, fiquei totalmente amarrada sendo manipulada por outra bailarina em uma das cenas. É muito difícil se entregar e confiar que os colegas não vão te machucar. A cena do Grupelho me fez recordar este outro momento e, de certa forma, perder a conexão com a cena que transcorria na frente dos meus olhos. É mais complicado focar no simbólico de uma cena quando também sabemos toda a dificildade técnica que as ações que presenciamos exigem ou quando elas nos levam, por meio da memória, a viajar para outros lugares e momentos.
Somente depois de alguns dias, conversando com outra amiga que também assistiu a Un burrito que me lleve, chegamos à conclusão de que este boneco que apareceu de forma súbita poderia representar a morte. Aliás, foi somente nesta conversa que "entendi" que o espetáculo falava sobre esses pequenos ou grandes rituais que nos acompanham no dia a dia (se eu tivesse lido a sinopse sabeira disso), como estar em grupo, comer, nos despedir de entes queridos, dançar, entre outros. A morte estava obviamente presente no espetáculo. A saída da sala puxada pelos intérpretes e acompanhada pelo público como num cortejo fúnebre e a cena final, que ocorreu na área externa em frente ao Centro Municipal de Cultura, são carregadas de simbologias deste momento de morte e/ou de despedidas. Os outros pequenos rituais, no entando, não ficaram nítidos para mim enquato assistia ao trabalho.
Saí do teatro meio incomodada, mas ao mesmo tempo sabendo que eu vira examente o que achava que iria ver, um trabalho com linguagem mais experimental, pesquisado e bem realizado, que levou um bom público à asistência e que, com certeza, conseguiu se comunicar com muitas das pessoas na plateia. Infelizmente, não fui uma delas, mas isso é mais coisa minha do que do trabalho.
Ficha Técnica Un Burrito que me lleve
Direção geral: Bruno Cunha
Intérpretes-criadores: Alexsander Vidaleti, Bruno Cunha, Li Pereira, Marlah Pritsch, Maria Eduarda Nectoux, Romi Na Ibis e Nazú Ramos
Co Direção: Tuli Serpa
Desenho de luz: João Fraga, Daniel Fetter e Tuli Serpa
Trilha sonora original e cenografia: Bruno Cunha
Técnica de som: Sofia Vidor
Identidade visual: Nicole Rizzo
Fotos: Jonatan Tavares e Liege Ferreira
Registro audiovisual: Fábio Spoltti
Realização: Grupo Grupelho
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