domingo, 25 de outubro de 2026

NEM ISSO, NEM AQUILO

 No sábado, 24 de outubro de 2026, às 19h, na Sala Álvaro Moreira, assisti Soniquete, o corpo do som, proposta cênica de Emily Borghetti e Paula Finn, com direção de Fábio Castilhos. Como disse para uma amiga na entrada da sala, esperava ver boas ideias. E, realmente, o trabalho tem alguns pontos com imagens bonitas, como o voo agitado e rápido dos leques, mas, na maior parte do tempo, senti que a cena estava no "entre", ou seja, não era nem uma coisa, nem outra. 

Na cena, um tablado pequeno e uma caixa preta são os únicos elementos aparentes, e as intérpretes ficam a maior parte do tempo sobre ele. Da caixa, saem castanholas, leques, uma garrafa de cachaça, outra de água e dois pequenos copos. Fiquei pensando qual era a metáfora para aquele pequeno tablado, se é que ela existe. A escolha do tablado pode ser apenas técnica, para melhorar a amplitude e qualidade do som do sapateado, mas ele não precisaria ser tão pequeno para isso. O tamanho dele foi uma escolha, mas baseada em que argumento? Seria a expressão imagética da proximidade das intérpretes, que são amigas há 30 anos? Se sim, o momento em que elas parecem se empurrar ou quase cair dele, representaria uma disputa entre elas ou um incentivo para que a colega experimente novas possibilidades? Pareceu-me mais a primeira opção e, neste sentido, fico pensando em que amizade é essa que se baseia na disputa e na medição de uma individualidade pela outra?

Fica evidente o uso das técnicas da palhaçaria. O espetáculo, contudo, não é cômico nem emocionante nem trágico. As intérpretes chegam a provocar, em alguns momentos, o riso da plateia, mas não de forma generalizada. Aliás, a primeira interação com a plateia, quando Paula e Emily se voltam para o público e tentam conversar com ele por meio de sonoridades bem típicas do flamenco, é mais um momento de destaque na narrativa um tanto confusa da proposta. A ideia de conversar em cena somente por meio de sons, sejam dos pés, das palmas, do canto, do solfejo rítmico* ou da glossolalia, parece ser a mola mestra do trabalho que poderia ter uns 20 minutos a menos, pois se esgota rapidamente. Talvez porque as duas mulheres em cena tenham preferido utilizar os sons, sejam eles de sapatos, castanholas, palmas, vozes ou leques, para representar este "soniquete", que, no flamenco, não se restringe ao som, mas ao ritmo que precisa ser incorporado ou corporificado. É possível demonstrar domínio máximo do ritmo apenas com movimentos corporais sem utilizar os sons. Esta camada de sentido, no entanto, não aparece na proposta encenada em Porto Alegre.

Outra camada que faz muito sentido quando se pensa, fala, dança, compõe no flamenco, são as estruturas e métricas das quais a música flamenca se utiliza. Este, contudo, foi outro ponto ausente em Soniquete, o corpo do som. Paula e Emily estavam obviamente conectadas ao ritmo e aos sons de melodias em muitos momentos, mas o tamanho das frases não respeitava as métricas tão características da música flamenca. Por certo, pode-se utilizar a técnica de baile, toque e canto do flamenco em outras melodias e estruturas rítmicas, mas pensar na forma como a música flamenca se manifesta e é composta traria uma outra camada de sentido, principalmente para aqueles que conhecem e pesquisam esta linguagem. Ao que parece, escolhe-se utilizar elementos bem típicos da linguagem nascida na Espanha, como as castanholas e os leques, sem se aprofundar nas outras possibilidades musicais tão características desta linguagem.

Paula e Emily são presenças interessantes na cena. Demonstram entrosamento e gosto genuíno por estarem em cena juntas, apesar desta dualidade de não se saber se elas estão disputando ente si ou se estimulando mutuamente. Iluminação e figurino compõem bem a cena e cumprem as funções a que se propõem sem, contudo, serem destaque no trabalho. Soniquete, o corpo do som, propõe boas ideias que poderiam, a meu ver, ser mais profundamente exploradas para delimitar com menos incerteza que corpo é este que produz tantos sons.

* No flamenco, os passos do sapateado não tem uma nomenclatura, como no ballet, por exemplo. Reconhecemos os passos pelos seus sons, representados por sílabas. É como um solfejo que os que estudam utilizam para se comunicar ou compreender os passos e suas rítmicas (ta, ca, ti, co). Além disso, por não utilizar partituras, os sons das castanholas também utilizam sílabas ao invés de notas para serem compreendidos (a, ri, ti, ta). Cada sílaba corresponde a um toque específico, seja dos pés ou das castanholas.


Ficha Técnica Soniquete, o corpo do som

Intérpretes/criadoras: Emily Borghetti e Paula Finn
Direção: Fábio Castilhos
Luz: Carol Zimmer
Fotografia: Rafa Cost

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