domingo, 10 de maio de 2026

TUDO CONFORME O ESPERADO

Antes de começar a escrever sobre a proposta cênica 7 cidades, quero deixar claro aqui que todas minhas impressões tem um viés. Há questões pessoais que me impedem de fazer uma análise totalmente isenta sobre o trabalho. O viés não invalida as observações, mas avisar que ele existe prepara os leitores. De todo jeito, quero escrever sobre o trabalho, pois, por ser uma flamenca em Porto Alegre, acho importante que aqueles que pesquisam e vivenciam esta linguagem escrevam e reflitam sobre a produção artística flamenca que é criada nesta localidade. Somos uma bolha pequena, barulhenta e cheia de complexidades próprias da linguagem que escolhemos abraçar e pesquisar. Isto posto, vamos a 7 cidades. 

Quero dizer que o que vi em cena não me surpreendeu. A Cia de Arte La Negra Ana Medeiros levou ao palco exatamente aquilo que eu esperava deste coletivo. Um figurino que condizia com a proposta, com belas peças de macramê, vídeos muito bem produzidos e realizados tecnicamente, bailaoras com larga experiência na linguagem. Este último vetor é exatamente o que me faz dizer que vi o que esperava, embora queira sempre mais dos trabalhos desta companhia. Conheço o potencial técnico das artistas em cena e é por isso que gostaria de ter visto algo diferente. Acredito que todas as mulheres em cena conseguiriam realizar uma pesquisa mais ampla e profunda de movimentos e temática, mas, por razões que não conheço, esta pesquisa parece estar sempre aquém destas possibilidades técnicas e artísticas. Aparentemente, as intérpretes escolhem não se arriscar, testar ou colocar à prova. Parecem atuar somente naquilo que já conhecem e sentem segurança. E isto não se limita a 7 cidades, mas é uma constante no trabalho desta companhia.

A proposta busca unir audiovisual, cena e arquitetura. Os vídeos no painel LED no fundo do palco também fizeram parte da divulgação do trabalho em versões específicas para as redes sociais. Neles, as sete bailaoras ocupavam diversos lugares de Porto Alegre, cada um conforme sua própria cidade interna. Apesar de muito bem produzidos, os vídeos foram mais interessantes enquanto peças de divulgação nas redes do que como elemento da cena. Nas redes, os vídeos cumpriram um papel na apresentação das intérpretes e da temática do espetáculo até porque foram pensados como pequenas vídeo danças individuais. A aplicação destas imagens no palco, contudo, não teve o mesmo impacto. As imagens eram um cenário que se movia, como a própria ficha técnica ressalta, com o qual as intérpretes pouco interagiam ou dialogavam. As imagens não traziam novos significados para a cena. Quanto a arquitetura, o fato de dançar numa praça, na plataforma da Trensurb ou na Rua da Praia não é uma novidade ainda mais depois de uma pandemia em que vídeos como estes foram frequentes. E não é que tenhamos que estar sempre buscando o ineditismo, porque isto é praticamente impossível num mundo com bilhões de pessoas, mas podemos trazer novas perspectivas ou pontos de vista para as temáticas propostas ainda mais nestes tempos de redes sociais em que as ideias viralizam e se disseminam com rapidez absurda nas redes sociais. 7 cidades não trouxe esta novidade de relação do corpo e da dança com a cidade ou os locais escolhidos. Mais do que isso, as diferentes cidades internas de cada intérprete também pouco se relacionaram com a cidade ou com a cena.

Outra questão bastante relevante para a linguagem flamenca é a questão da trilha sonora. Na proposta cênica em questão, ela foi pré-gravada e composta especificamente para a obra. Não que espetáculos flamencos tenham que ter sempre músicos executando suas criações ao vivo no palco. Nem acho que 7 cidades tinha este espaço para a presença de músicos, que no flamenco ainda são majoritariamente homens, na cena, minha questão é mais com a construção musical do espetáculo, em especial com as sequências de sapateado tão características desta linguagem artística. Mais uma vez, levando-se em conta o histórico de trabalhos da companhia, as construções musicais apresentadas pareciam aquém das potencialidades das intérpretes e até da necessidade de intensidade de alguns momentos da proposta cênica. Dinâmicas mais intensas em alguns momentos teriam produzido um efeito sonoro e visual maior. Em outros instantes, a construção rítmica não trouxe aportes sonoros relevantes à base musical já existente. E é esta a questão que levanto aqui, tentando pensar sobre as diferentes sonoridades num espetáculo de flamenco. As castanholas, por exemplo, elemento tão icônico do baile espanhol, foram tão pouco exploradas em termos de sonoridade que poderiam ter sido substituídas por outro elemento percursivo, como as palmas por exemplo.

Por fim, quero registrar que tenho uma visão diferente sobre os valores de ingressos para trabalhos que são desenvolvidos a partir de dinheiro público, seja via edital, fundos de cultura, investimento direto do poder público ou renúncia fiscal. Sempre que existe verba pública envolvida, acredito que uma das contrapartidas à sociedade é cobrar preços populares (e 100 reais não é preço popular) ou até mesmo garantir a gratuidade das entradas a depender de quanto for este investimento público no trabalho artístico realizado ou de quais entradas financeiras ainda são necessárias para garantir a remuneração da equipe envolvida no projeto. É a contrapartida mínima para a sociedade na minha modesta opinião que não foi requisitada, aliás. Este tema das contrapartidas, contudo, é vasto e merece uma reflexão somente para ele, algo que não prometo, mas pode ser que faça num futuro. Não aguardem, apenas confiem.

 

Ficha Técnica 7 Cidades

Direção geral, idealização do projeto, coreografia, figurinos, cenografia e identidade visual: Ana Medeiros La Negra
Intérpretes criadoras: Ana Medeiros La Negra, Ana Cândida La Campanera, Bianca Benevenutto la Señora, Emily Borghetti, Luciana Meira, Patrícia Correa La Paloma e Thaís Virgínia La Sol
Direção artística: Everson Silva
Assessoria de imprensa: Bruna Paulin, Assessoria de Flor em Flor
Produção executiva: Cibele Donato
Iluminação Cênica: André Hanauer
Sonorização: Wagner Lagemann
Execução figurino: Gustavo Dienstmann e Tânia Ferreira
Captação e criação das vídeos danças e cenário projetado: Fábio Zambom
Fotografia: Fábio Zambom e Rafa Morais
Filmagens aéreas/drone: Léo Medeiros
Painel Led: Mais Produtora
Produção de palco: Audrei Costa
Fotos enchente: Tiago Antoniazzi
Trilha sonora: Paola Kirt, Tamiris Duarte, La Negra Ana Medeiros e Wagner Lagemann/Coletivo Pedra Redonda
Direção musical: Tamiris Duarte e Paola Kirst
Guitarra: Marcyo Bonefon e Jef LIma
Cante: Marcyo Bonefon, Paola Kirst e Tamiris Duarte
Violino: Bibiana Turchiello
Baixo elétrico e baixolão: Tamiris Duarte
Ukulele: Paola Kirst
Percussão: La Negra Ana Medeiros, Paola Kirst e Tamiris Duarte
Captação, mixagem e masterização: Wagner Lagemann
Composição e arranjos: Tamiris Duarte, Paola Kirst e La Negra Ana Medeiros


 

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