Uma Dança para a Morte, do Grupo Andanças, reúne algumas formas como diferentes povos e culturas vivenciam a única certeza que temos na vida: a morte. Pelo menos é isso que meu pai quase centenário, ele está com 98 anos, sempre diz: A morte é a única certeza que temos na vida.
Na cena inicial, intérpretes vestidos com roupas coladas ao corpo em tons claros de bege parecem pequenos vermes se movimentando até um pedaço de carne. Por mim, aquele momento poderia ter durado o dobro ou triplo do tempo. Em alguns momentos, alguns intérpretes pareciam fazer movimentos precipitados para realizar a ação de forma mais rápida. A luz, a música e o momento em que a cena ocorre, no início do espetáculo, possibilitariam um ritmo de cena bem mais lento para instaurar “um clima” diferente ao local. A pressa não tem lugar neste momento, já que a morte já se deu e agora resta à natureza cumprir o ciclo normal de todos os seres vivos. Além disso, com uma duração um pouco mais longa, a cena dá mais oportunidade ao observador meio desatento de perceber qual o contexto narrativo do que está no palco. Isso, óbvio para aqueles que não leem o programa antes de ver o trabalho, já que a temática de cada cena está explicada no material impresso.
A partir da terceira cena, o grupo percorre algumas tradições bastante peculiares nestes momentos de despedida. Do mito grego do Caronte aos festejos mexicanos, o grupo de danças populares seleciona alguns ritos que contrastam com as tradições majoritárias na sociedade brasileira para lidar com este momento da morte. Falo majoritárias, pois ritos de populações originárias do território hoje chamado Brasil também estão presentes na cena. Objetos cênicos, mudanças rápidas de figurinos e um entra e sai constante do elenco marcam as diferentes cenas que trazem ao palco distintas formas de encarar a morte, a despedida, a perda de convívio com as pessoas queridas. Destaco que, para estas apresentações dentro da programação do festival Porto Verão Alegre, o elenco do Grupo Andanças, em geral, formado por bailarinos e bailarinas especializados nas danças chamadas de populares, tinha a participação de bailarinos profissionais com trajetórias bastante estabelecidas em Porto Alegre na dança contemporânea, trazendo uma diferente qualidade de movimento à cena.
E isso traz uma característica interessante para estas apresentações, porque bailarinos e bailarinas de danças populares geralmente tem uma formação especializada em determinado grupo e por vezes linguagem. São pessoas que passam 15, 20, 30 anos pertencendo a um determinado coletivo de culturas populares, que se especializam em determinados tipos de danças e manifestações, com formas e estética mais livres ou menos formalizadas. Não que as danças populares não possam ser altamente formais, como nos mostram os grupos do tradicionalismo gaúcho, por exemplo, mas a qualidade de movimento é diferente dos bailarinos e bailarinas das danças cênicas, especialistas em outras linguagens como ballet ou jazz, por exemplo. Uma diferença que pode ser vista na forma de se colocar em cena, de se mover e de sentir. Não é uma questão de melhor ou pior, mas de diversidade de formações que o palco evidencia. Bailarinos de danças cênicas e mais formalizadas conseguem, num curto espaço de tempo, experenciar o sentir das danças menos formalizadas, aqui chamadas de populares? Se não, isso elimina ou diminui “a verdade” da dança popular que o Grupo Andanças se propõe a trazer para a cena? Ou, invertendo, ao trazer estas danças para a cena, elas perdem seu caráter popular e aí é necessário uma certa formalização para que o trabalho seja considerado qualificado para estar no palco? O palco é lugar para as danças populares? Não pretendo responder as questões, apenas propor reflexão sobre esta temática que já vem sendo debatida em outros espaços de pensamento e discussão.
Voltando ao espetáculo, cada cena é um quadro separado e não há uma relação entre uma e outra a não ser, claro, a temática envolvida: a morte. Fica óbvio na construção dramatúrgica do trabalho que a separação entre uma manifestação cultural e outra foi delimitada com o uso da iluminação e creio que este pode ser um recurso mais explorado ou feito com uma duração um pouco mais longa, coisa de uns segundos a mais, para dar tempo do espectador trocar a imagem em tela, por assim dizer. Outra opção seria fazer estas transições em cena já que o figurino é composto por uma roupa preta na base à qual são sobrepostos saias, detalhes em tecidos coloridos e outros acessórios. Como o tempo entre o assistir e o escrever sobre foi mais longo do que eu gostaria, não consigo lembrar bem se essa transição em cena não acontece em algum momento. De todo jeito, senti necessidade de ter mais tempo entre uma cena e outra, seja numa transição coreografada ou com recursos de iluminação. Aliás, a transição para a última cena, com a colorida manifestação mexicana, é bastante surpreendente. Como tiveram tempo de fazer tantas mudanças em tão pouco tempo? A arte e suas magias.
Por último, quero ressaltar que essas são apenas minhas impressões. Não escrevo neste espaço para julgar ou qualificar nada. Nem acho que este seja o espaço que a crítica deveria ocupar. Penso que mais do que dizer se algo é bom ou ruim, está certo ou errado, a crítica pode levantar novos pontos de vista e propiciar uma reflexão construtiva sobre o fazer artístico. Quantas vezes levamos um trabalho pra cena sem saber como será recebido. Não é sempre que conseguimos dividir nossas impressões sobre trabalho com nossos colegas. Por ser uma artista da cena de Porto Alegre, sei bem a dificuldade e as contingências que cercam o fazer artístico neste território. Aos que quiserem refletir sobre as questões humanas e suas representações pela arte, espero que sigam acompanhando meus devaneios por aqui.
E concluindo de verdade agora, Uma dança para a morte, do Grupo Andanças, que já
tem 27 anos de trajetória na capital gaúcha, traz ao palco tradições absolutamente diferentes sobre um mesmo tema. A diversidade de formas e rituais que a humanidade encontrou para lidar com este momento inevitável que é a morte é realmente surpreendente. Que o Grupo Andanças siga pesquisando e ocupando espaços menos ou mais formais, mesclando corpos, formações e manifestações.
Ficha Técnica Uma Dança para a Morte
Direção: Cláudia Dutra
Coreografia: Cláudia Dutra e Clóvis Rocha
Pesquisa: Cláudia Dutra, Clóvis Rocha e Mário Borba
Produção: Andrea Mirandola, Cláudia Dutra, Luan dos Santos e Rudnei de Andrade
Figurinos: Cláudia Dutra e Clóvis Rocha
Confecção: Blanca Queiroga, Cláudia Dutra, Clóvis Rocha, Elda Lejes, Suelen Santos, Rudnei de Andrade, Lauriane Freitas, Robson Maori, Mônica Aires, Maurício Cruz, Herica Gonzalez e elenco
Cenografia: Cláudia Dutra, Daniel Lay, Leandro Barbosa e Radalesque Coleone
Iluminação: Karrah Luz
Pesquisa de trilha: Cláudia Dutra e Clóvis Rocha
Sonorização: Cláudia Dutra
Fotografia: Nando Espinosa
Preparação de elenco: Doula da Morte (Andrea Mirandola)
Elenco: Andrea Mirandola, Andressa Pereira, Clóvis Rocha, Elisa Costa da Silva, Laís Senhor, Lauriane Freitas, Leandro Barbosa, Maurício Miranda, Pedro Coelho e Rossana Scorza
Participação Especial: Daniel Lay
Perfeito acho que ainda devo dizer algo pra Cláudia quanto a transicao
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