segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

REENCONTRO ARTÍSTICO

Décadas depois de vê-la dançar em Porto Alegre, tive a felicidade de ver novamente no palco Sílvia Wolff com seu espetáculo solo Pena no dia 05 de novembro. A apresentação fez parte da segunda edição do edital Atos e Cenas promovido pelo Instituto de Artes Cênicas do Rio Grande do Sul, em parceria com a Fundação Teatro São Pedro e o Sesc RS, e que ocupou semanalmente o Teatro Oficina Olga Reverbel nas noites de quarta-feira entre os meses de julho e dezembro de 2025.

Foi uma grata surpresa ver Sílvia nesta proposta tão diferente da imagem que eu tinha dela de bailarina clássica, com sapatilhas, tutu e no papel de fada ou princesa, seres que tão comumente habitam os ballets de repertório. Em Pena, Sílvia traz pra cena um corpo que se recusou a ser escondido, apagado ou impedido de dançar. O espetáculo é bastante emocionante pra quem conhece a trajetóia desta artista que sofreu um AVC aos 34 anos e ficou com restrições de movimentos. Pena fala sobre isso, sobre este corpo e as formas que ele encontrou para seguir dançando. Sílvia segue sendo uma bailarina capaz de prender a atenção do público. Sozinha no palco por uma hora, ela transita entre momentos de raiva, de sexualidade, de interação com o público, de risos, de obssessão e de contemplação. O que não vemos em cena é autocomiseração.

Silvia reinvindica sua trajetória como bailarina clássica ao mesmo tempo que reposiciona seu corpo na cena, fazendo uma dança mais térrea, com mais contato com o solo em comparação ao balé clássico. Aliás, a disposição do público na sala dificultou a visibilidade das pessoas que estavam sentadas nas filas mais atrás na plateia. As duas fileiras de cadeiras ao nível do solo acabaram deixando as pessoas sentadas nestas fileiras na mesma altura ou até mais altas do que Silvia quando esta se encontrava sentada ou deitada no chão. Entendi que o caráter intimista da proposta pede que o público esteja bem próximo à intérprete, mas metade da plateia acabou assistindo a obra de pé, já que não tinha como ver toda a cena sentados na terceira ou quarta fileiras da plateia. 

Além da dificldade para visualizar alguns momentos da intérprete em cena, Pena tem uma dramartugia um pouco truncada em alguns momentos. Por duas ou três vezes um tema ou uma ação ressurgem sem agregar algum elemento realmente novo a cena, quase como se uma palavra fosse pronunciada sem contexto num diálogo para completar uma frase já concluída e depois de outras duas ou três frases já terem sido ditas entre a palavra solta e a frase em que ela deveria estar inserida. Aquela palavra fica solta, fora de contexto, parece que volta a um assunto que já não é o que está sendo falado no novo momento. Se fosse eu na direção do trabalho, talvez tentaria adicionar a palavra no momento, nesta analogia construída aqui, em que a primeira frase era dita. Acho que seria mais interessante esgotar o assunto antes de começar outro ou, se fosse pra retomar algum assunto, trazer algum novo aporte ao texto nesta retomada. 

Ao mesmo tempo, esse vai e volta em momentos e situações pode refletir essa trajetória de reencontro com a dança que, com certeza, Sílvia percorreu nos últimos anos. Ela desenvolveu novas técnicas ou habilidades e todos que trabalham com o corpo sabem que este processo de construção corporal não é algo linear e sempre crescente. A dança, a técnica, as habilidades corporais e expressivas vão se configurando numa caminhada cheia de avanços, pausas e, por vezes, retrocessos. Olhando por este lado, pode ser que a dramaturgia que ia e voltava em certas imagens ou ações quizesse fazer alusão a esta trajetória de um corpo que se reconstrói enquanto corpo dançante. 

Por falar em revisitar ou aludir, a trilha sonora composta por Daniel Wolff traz releituras impactantes e bem realizadas de trechos famosos de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. A trilha auxilia a dramaturgia que, a todo tempo, relembra os tempos de bailarina clássica, mas expõe a nova realidade desse corpo de uma mulher com deficiência que recriou sua dança e que reivindica sua possibilidade de dançar. Um novo corpo, que não é simétrico, porque não pode sê-lo, mas que segue belo, potente e capaz de emocionar, chocar, desconfortar e comunicar com o público. Um corpo que segue em cena, quebrando expectativas e construindo sua dança.


Ficha Técnica Pena

Bailarina Intérprete-criadora: Silvia Wolff
Direção: Flávio Campos
Produção: Lucca Adams Pilla
Assessoria de imprensa: Roberta Amaral
Cenografia e figurinos: Flávio Campos e Sílvia Wolff
Trilha sonora original: Daniel Wolff
Trilha sonora adicional: Peter Ilich Tchaikovsky, Ole Torkeisen
Iluminação: Raquel Guerra
Sonoplastia: Walcker Martini
Assistente de produção: Gabrielly Neumann
Design gráfico: Pedro Henrique Azevedo

domingo, 21 de dezembro de 2025

A CRISE CLIMÁTICA E A LONGEVIDADE DA DANÇA EM PORTO ALEGRE

De Gelo, da Eduardo Severino Cia de Dança, celebra os 25 anos de existência da companhia que tem histórico de trabalhos relacionados ao tema do meio ambiente, como  Planetário, de 2000; Lixo, Lixo, Severino, de 2002; Ykúà, o silenciador de um rio, de 2006; Tempestade, de 2009; Linha de convergência, de 2010 e Manchas Urbanas, de 2014. Ecos de algumas destas propostas aparecem no mais recente trabalho da companhia.

De Gelo começa no saguão do Teatro do Centro Cultural da Santa Casa onde jovens bailarinos do Espaço N caminham pelo espaço em fila com mudas de plantas nas mãos. Quando eles entram para o teatro, Eduardo Severino aparece e cochicha uma frase no ouvido de uma pessoa da platéia, que estava, naquele dia, recheada por outros nomes da dança de Porto Alegre. A frase vai se espalhando pelo público, passando de orelha em orelha, no famoso "telefone sem fio". É algo sobre o ponto de não retorno, mas não lembro exatamente da sentença (já faz alguns meses que tudo isso aconteceu). O tal ponto está próximo, avisam os cientistas, e o nome já explica tudo que precisamos saber sobre esta ameaça à vida como conhecemos neste planeta.

Em cena, uma enorme pedra de gelo derrete num lado do palco enquanto vemos as paredes, portas, escadarias, pernas, rotundas e outros urdimentos e tudo aquilo que geralmente fica atrás das cortinas dos teatros. O palco revelado era como um local onde a neve e o gelo deixaram de existir: pedras, troncos mortos, lama, tudo revelado e aparentemente fora do lugar. Mesmo entendendo o que esse plano de fundo poderia significar para a proposta cênica e vendo que os artistas utilizavam a escada que tem no centro e no fundo do palco para entrar e sair de cena, acho que alguns momentos mais delicados da iluminação perderam um pouco de desenho na cena aberta. A projeção também perdeu resolução. O pinguim projetado na porta de um camarim ficou visível, triste e poético ao memso temppo. Um pinguim perdido, fora do seu lugar, sem habitat. Os ursos polares, contudo, tiveram a visualização prejudicada e não surtiram o mesmo efeito narrativo.

Apesar dessa diferença quanto às escolhas de cenário e projeção, foi interessante ver a mistura de jovens bailarinos com um intérprete maduro, com consolidada carreira na cidade. Ver corpos mais jovens executando movimentos que já vimos outras vezes no corpo de Eduardo Severino, é a celebração de uma trajetória e a continuidade dos processos criativos das companhias independentes na cidade. Severino segue sendo uma figura imponente em cena, que transita entre movimentos fluídos e cenas grotescas. Um bailarino técnico e ao mesmo tempo expressivo que desenvolveu uma linguagem própria que, em De Gelo, pudemos ver compartilhada por um grupo de jovens bailarinos, algo não usual para a companhia que costuma trabalhar com elencos de duas ou três pessoas.

O bate-papo que seguiu ao espetáculo foi um misto de elogios a estas características artísticas com um tanto de negacionismo climático e até de gente que acredita no fim do mundo, mas é incapaz de crer na superação do sistema que acelerou os processos de degradação humana e ambiental: o capitalismo. Chega a ser meio desesperador sair de uma obra que fala sobre a crise que já vivemos e ver que tem gente na platéia que ainda duvida das ações que são necessárias para evitar as piores consequências das escolhas que nos trouxeram para o quase ponto do não-retorno. Infelizmente, a arte não é capaz de, sozinha, transformar o mundo. Não nos resta, contudo, outra alternativa, a não ser seguir tentando.


Ficha Técnica De Gelo

Direção: Eduardo Severino
Direção artística: Driko Oliveira
Intérprete-criador: Eduardo Severino
Elenco de apoio: Aléxia Chaves, Andi Goldenberg, Camila Wood, Luciana Bazanella, Luciano Benett, Du Pascal, Rafael Sky e Tami Melegari
Produção: Luka Ibarra / Lucida Desenvolvimento Cultural
Iluminação: Driko Oliveira
Trilha sonora e edição de vídeo: Sustain Produção
Fotografias: Nando Espinosa
Assessoria de Imprensa: Roberta Amaral

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

FLORES, UMA MÃE E QUESTÕES SOBRE A ESCRITA

Este texto nasce depois de uma série de fotos que tirei no sítio da família num domingo de muito calor no Rio Grande do Sul. Ao pensar na legenda das imagens para uma postagem em uma rede social, o texto começou a ficar muito longo, pois vários parênteses foram abertos a partir daquilo que pensei em escrever.

Ir ao sítio da família me traz muitas recordações. São muitos anos de lembranças. Desde 2019, contudo, quando minha mãe faleceu, toda ida é também um momento de reflexão e, por vezes, de tristeza. Contemplar as flores que ela plantou naquele local que amava tanto ou ver que a vida segue seu curso, com tudo que isso significa, é um fardo emocional cada vez mais pesado. Eu sei que minha mãe mora naquele lugar. Ela está presente por todos os lados. E foi porque comecei a pensar nela que fui viajando nos pensamentos e conectando coisas que, em princípio, não estariam conectadas. Lembrei dos tempos da faculdade de jornalismo e de quando comcei a escrever uma coluna de crõnicas num site, que se chamava Capital Gaúcha, onde trabalhava lá no iníciio dos anos 2000. Minha mãe achava que eu seria apresentadora do Jornal Nacional. Tem mães que sonham mais alto que os próprios filhos. Voltando à história, quando saí do site e comecei a me dedicar novamente exclusivamente à dança, este blog surgiu. Eu tinha a vontade de seguir escrevendo. Escrevi crônicas, tentei fazer uma espécie de agenda de eventos flamencos e escrevi algumas críticas de espetáculos. Um tema que planejei estudar quando fiz Tecnologia em Dança na Ulbra, porém não desenvolvi o projeto. Por um tempo, consegui manter este local mais ativo, mas depois os blogs perderam espaço para as redes sociais e parei de publicar textos por aqui.

Ano passado, contudo, uma oficina de crítica em dança me fez retomar este espaço. Ainda estou destreinada na escrita. Ando lendo menos, lidando menos com as palavras, os 40+ também não estão ajudando muito na memória, os cuidados com meu pai se intensificaram no último ano, a rotina de trabalhos, codições de saúde e tudo mais que faz parte da rotina de uma mulher trabalhadora nesta nossa sociedade não permitem um fluxo muito constante de escrita. Neste exato momento, tennho dois textos começados que não consigo concluir e ainda faltam as criticas sobre outros 3 espetáculos que assisti e sobre os quais ainda nem consegui começar a escrever. A rotina anda muito pesada, contudo, e o tempo tem sido muito, muito escasso mesmo. Admiro quem consegue ser multitarefas. Eu tentei, mas acho que atingi um limite na escala bombril de utilidades. Creio que pegar no sono enquanto digita algo no teclado é sinal suficiente de cansaço. E também é importante refletir sobre a quantidade de coisas que produzimos. Estamos cada vez mais sobrecarregadas. Aliás, as mulheres estão sempre carregando mais peso do que deveriam. Cresci vendo minha mãe cuidar da família toda e trabalhar três turnos. Como ela aguentou tantos anos? Não é à toa que acabou com uma doença pulmonar estranha. 

De volta à oficina, falamos sobre os diversos tipos de críticas. De fato, não há uma só forma de escrever. Os textos podem ser mais artísticos, mais descritivos, mas reflexivos. Um espetáculo pode gerar um poema, uma crônica. Não invalido as diferentes formas de expressão literária. Eu sou, contudo, esta pessoa que escreve em primeira pessoa, que dá a opinão, que acha que temos que escrever sobre todos os espetáculos que assistimos, principalmente se ganhamos cortesias. É cômodo escrever somente sobre aquilo que nos toca, nos sensibiliza, com aquilo que conseguimos nos relacionar. Eu tenho tentado encontrar possibilidades para a escrita. Há sempre uma relação possível. Se ela vai ser interessante para os outros, aí já é outra história. Eu entendo que é difícil dar a opinião verdadeira em Porto Algere. Na Província de Sâo Pedro, as pessoas tendem a personalizar as críticas e a criar inimizades. É óbvio que também acho que não existe mais lugar para aqueles textos que simplesmente destróem com o trabalho dos outros, mas apontar falhas ou diferenças de ponto de vista, de escolhas, não precisa ser algo ofensivo. Creio que a crítica faz parte do cenário da arte. É interessante, eu diria, necessário, ouvir, ler, descobrir como nosso trabalho é recebido. Isso faz toda a cena amadurecer, nos faz repensar processos ou negritar opções feitas. 

Consegui escrever e aí surge um outro problema; jogo meus textos aqui e não aviso pra ninguém. Não mando o link pras pessoas lerem, no máximo faço um story de Instagram com o link e digo timidamente que existe um blog e que nele estão reflexões sobre arte. Nem eu estou convencida de que algo aqui seja digno de nota. Quem vai procurar num Google da vida o que a Graziela Silveira acha sobre determinado trabalho artístico? Por mais que eu já esteja atuando profissionalmente em Porto Alegre há 20 anos, as pessoas ainda não desenvolveram o dom da adivinhação. E algumas podem até me conhecer, mas não estão interessadas no que eu penso sobre coisa alguma. Fora isso, eu escrevo no meu próprio dinossáuríco blog. Não publico meus textos em meios de comunicação, aliás, nem aproveitei a oportunidade que surgiu para pleitear vaga como colunista em meios da dança, pois acreditava que essa vida jornalística estava longe da minha realidade. A pandemia me jogou de volta pra o jornalismo e ainda estou tentando abrir espaço pra a escrita na agenda. 

Enfim, estou aqui escrevendo devaneios surgidos de momentos de calor num sítio. Eu só estava fotografando flores e de repente me peguei pensando e depois escrevendo sobre crítica de dança e sobre minha relação com a escrita num mundo em que as pessoas não leem mais de 5 linhas nas redes sociais. Acho que é só saudade de ter uma mãe torcendo por mim e desejando me ver na maior rede de televisão do Brasil. De uma certa forma, manter este espaço ativo é realizar um pouco estes desejos maternos. A tentativa agora é deixar neste ano o que é dele, ou seja, terminar todos os textos começados e aqueles que ainda estão só em pensamento. É preciso abrir espaço para a vida que vem com 2026.